Endividamento recorde leva hoje milhares de argentinos para a rua em protesto contra o Governo Milei

A Argentina recebe esta quinta-feira uma nova jornada de protestos contra a escalada do endividamento das famílias e a deterioração das condições económicas.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Argentina recebe esta quinta-feira uma nova jornada de protestos contra a escalada do endividamento das famílias e a deterioração das condições económicas. A marcha, convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), pelas duas centrais da CTA, por organizações sociais e por grupos de cidadãos endividados, pretende chamar a atenção para os 5,8 milhões de argentinos que têm empréstimos pendentes ou enfrentam atrasos considerados graves. A manifestação está marcada para Buenos Aires e terá como destino o Ministério da Economia. A informação foi avançada pelo Página/12, segundo o Brasil 247, que noticia a mobilização.

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Os dados do Banco Central da Argentina utilizados pelas organizações abrangem dívidas contraídas através de canais formais, como cartões de crédito, carteiras digitais e empréstimos pessoais. O número poderá, contudo, ser superior, uma vez que as estatísticas oficiais não incluem créditos informais obtidos junto de vizinhos, agiotas ou redes clandestinas, incluindo grupos associados ao narcotráfico. Para as entidades que convocam o protesto, o nível de endividamento atingiu uma dimensão que deixou de poder ser encarada apenas como uma questão financeira individual e passou a representar um problema social. A CGT sustenta que muitas famílias estão a recorrer ao crédito para conseguir suportar despesas básicas. “As famílias argentinas se endividam para poder viver, pagar o aluguel, comprar comida, cobrir as contas de luz, gás ou despesas básicas da casa”, afirma a central sindical na convocatória.

Governo Milei rejeita intervenção na relação entre credores e devedores
O crescimento das dívidas tem sido acompanhado por uma divergência profunda entre o Governo de Javier Milei e as organizações sindicais. O Presidente argentino considera que os empréstimos e os incumprimentos constituem uma questão que deve ser resolvida entre as partes envolvidas, sem intervenção estatal. “São um problema entre particulares”, afirmou Milei, numa posição que sinaliza a intenção do Governo de não intervir diretamente nas relações entre credores e devedores. O ministro da Economia, Luis Caputo, também responsabilizou as decisões dos próprios consumidores pela situação, argumentando que muitos contraíram crédito com juros elevados numa expectativa que acabou por não se concretizar. “As pessoas contraíram dívidas excessivas a taxas altíssimas, pensando que a inflação corroeria as dívidas, e isso não aconteceu”, declarou o ministro.

Os sindicatos contestam esta leitura e associam o aumento do endividamento à perda de poder de compra e ao crescimento das despesas essenciais desde a chegada de Milei à Presidência. Na convocatória da CGT, a organização rejeita a ideia de que a situação resulte apenas de decisões financeiras individuais e considera que as condições económicas estão a empurrar as famílias para o crédito. “Desde que Milei chegou ao poder, o custo de vida disparou, enquanto os rendimentos ficaram cada vez mais aquém das necessidades reais. Portanto, esse nível de endividamento na sociedade não é um problema individual, mas sim um sistema que empurra as famílias para o endividamento”, defende a central sindical.

Fintechs e juros estão no centro das críticas
As taxas cobradas por empresas de tecnologia financeira e por pequenas instituições de crédito também estão entre os principais alvos das organizações que participam na manifestação. Hugo Yasky, dirigente da CTA, considera que a ausência de regulamentação sobre determinados juros e penalizações está a contribuir para que as dívidas aumentem de forma contínua. “O problema mais grave está passando despercebido: os juros e as multas cobrados por empresas fintech e pequenas instituições financeiras locais não são regulamentados. Dessa forma, a dívida das famílias se transforma em uma bola de neve que não para de crescer”, afirmou.

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A União dos Trabalhadores da Economia Popular responsabiliza igualmente o Governo pelo agravamento das dificuldades económicas e aponta a redução do apoio público a empresas e cooperativas ligadas à economia popular como um dos fatores que terão aumentado a pressão sobre os rendimentos. Entre as medidas contestadas está o encerramento do programa De Volta ao Trabalho, que abrangia cerca de 900 mil pessoas. Segundo a organização, a retirada desse apoio fragilizou trabalhadores dependentes da economia popular e aumentou a necessidade de recorrer a empréstimos para fazer face às despesas quotidianas.

Marcha chega ao Ministério da Economia esta tarde
A marcha dos endividados começa às 14h desta quinta-feira, no cruzamento das avenidas Paseo Colón e Independencia, estando prevista a chegada dos manifestantes ao Ministério da Economia, na rua Hipólito Yrigoyen, número 250, junto à Casa Rosada, cerca das 14h30. O protesto integra uma sequência de mobilizações promovidas por sindicatos e organizações ligadas à economia popular para denunciar os efeitos das políticas económicas do Governo Milei.

A atual vaga de protestos começou a 22 de julho, com uma manifestação de centrais sindicais e movimentos sociais em defesa dos reformados. A 6 de agosto, houve uma nova concentração junto ao Congresso contra a chamada lei da inviolabilidade da propriedade privada. No dia seguinte, 7 de agosto, os sindicatos participaram na marcha por Pão, Terra e Trabalho, organizada por movimentos sociais no contexto das celebrações de São Caetano. A possibilidade de uma nova mobilização contra o endividamento já fazia parte do calendário, embora a data só tenha sido posteriormente definida. Dentro da CGT, os setores mais combativos defendem que a escalada de protestos deve culminar numa greve geral, que seria a quinta durante o Governo Milei, mas a proposta ainda não reúne consenso no seio da central sindical.

Pequenas e médias empresas também protestam em Buenos Aires
A contestação desta quinta-feira não ficará, contudo, limitada às organizações sindicais e aos cidadãos endividados. Pequenos e médios empresários também vão sair à rua em Buenos Aires, com uma concentração prevista para as 9h junto à Casa Rosada, várias horas antes da marcha dos endividados. Uma das entidades promotoras, a Associação Nacional de Proprietários de Empresas, afirma que 26 mil pequenas e médias empresas fecharam durante o Governo Milei e, juntamente com outros grupos empresariais, pressiona o Congresso para aprovar uma Lei de Emergência destinada ao setor.

A organização apelou ainda aos proprietários de pequenas e médias empresas para mobilizarem parceiros comerciais e participarem na concentração. Assim, esta quinta-feira coloca no mesmo palco de contestação duas dimensões da crise económica argentina: por um lado, as famílias que enfrentam empréstimos, atrasos e dificuldades para pagar despesas essenciais; por outro, os pequenos e médios empresários que denunciam o encerramento de empresas e reclamam medidas de apoio. As duas mobilizações procuram, por vias diferentes, pressionar o Governo e o Congresso argentinos perante uma situação que os seus promotores consideram ter ultrapassado a esfera das dificuldades individuais.

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