Numa altura em que o país se prepara para regressar gradualmente à normalidade, depois de levantado o Estado de Emergência, são muitas questões que surgem, no que diz respeito ao processo de desconfinamento e de reabertura da economia.
Numa entrevista à ‘Renascença’, o director do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S), Cláudio Sunkel, indica que com a reabertura da sociedade o reforço da imunidade de grupo é inevitável e na sua opinião «a única estratégia possível», sendo que a alternativa encontrada «é tentar esmagar a curva o máximo possível, de forma a que mais ninguém seja infectado, mas isso implicaria fechar completamente o país», refere.
«Vamos ter de, lentamente, continuar a permitir que algumas pessoas sejam infectadas, mas que esse número seja controlado, porque é a única forma de ganhar imunidade comunitária, que é a única forma que teremos para lidar com o vírus, caso não seja possível encontrar uma vacina que nos permita avançar com essa imunidade de uma forma ainda mais rápida», afirma Sukel.
O especialista acredita que «A única coisa que é efectiva neste momento é evitar que as pessoas se encontrem umas com as outras, porque o vírus propaga-se através do contacto social. Portanto, ou morremos da cura ou conseguimos sobreviver».
O especialista continua dizendo: «Muito mais arriscado seria dizer que vamos tentar obter imunidade de grupo o mais rápido possível, porque isso significaria um aumento muito exponencial no número de óbitos, que foi o que aconteceu por exemplo na Suécia. Eles estão a tentar atingir uma imunidade comunitária mais rapidamente, permitindo o contacto social de uma forma mais alargada, mas eles têm o triplo das mortes de Portugal», afirma.
Sukel considera que mais importante do que a implementação de estados de emergência ou confinamentos forçados, é o bom senso e a responsabilidade das pessoas em cumprir com todas as recomendações das autoridades de saúde, uma vez que «vamos ter de nos habituar a conviver com o vírus durante um tempo que vai ser longo», afirma Sukel.
«Sem a responsabilização das pessoas, isto também não faz muito sentido. Por enquanto, ainda não temos vacina, ainda não atingimos os 70% de imunidade comunitária. Isso significa que todos nós temos de ter uma forma responsável de estar nos próximos meses», refere o especialista.
Quando questionado sobre se a reabertura do país poderá trazer um retrocesso da epidemia, Sukel responde: «Temos de ponderar entre o risco e o benefício da abertura e a questão da economia é muito complexa. Temos muita gente em “lay-off”, gente que perdeu o emprego e, portanto, há que ponderar também se essas pessoas se podem manter nessa situação durante muito mais tempo», defende.
«Portanto, temos duas opções: ou continuamos fechados e esperamos que isto desça ainda mais – as recomendações vão no sentido de que o número de infecções por infectado à volta de 1, ou se for possível abaixo disso, permitiria uma reabertura com mais confiança», refere.
Relativamente a uma potencial vacina, esse é o objectivo, que vai permitir uma normalidade mais tranquila, contudo ainda não existe uma data prevista para que seja lançada. «No melhor dos cenários, poderemos estar a testar vacinas no início do próximo ano. Mas, nessa altura, ainda não sabemos se serão eficazes ou não», refere o responsável.














