Por Luís Augusto, presidente da Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (ALF)
Num contexto económico marcado por volatilidade, exigências crescentes de liquidez e pressão sobre os prazos de pagamento, a gestão eficaz da tesouraria deixou de ser apenas uma boa prática — tornou-se uma condição de sobrevivência e de crescimento para as empresas. É neste cenário que o factoring se afirma como uma solução estratégica de financiamento, capaz de transformar créditos comerciais em liquidez imediata e previsível, razão pela qual o setor tomou créditos no valor de 45,7 mil milhões de euros no ano de 2024, o equivalente a cerca de 19% do PIB nacional.
O factoring é um instrumento financeiro que permite às empresas cederem as suas faturas a uma instituição de crédito ou financeira especializada (factor), podendo receber de forma antecipada o valor correspondente — total ou parcial — antes do prazo acordado com o cliente. Mais do que um adiantamento de fundos, o factoring inclui serviços de gestão e cobrança de créditos e, frequentemente, cobertura do risco de incumprimento.
Desta forma, a empresa não só assegura liquidez e previsibilidade, como também externaliza parte da gestão administrativa e do risco comercial, contando com o apoio e conhecimento especializado da factor.
Ao converter vendas a crédito em disponibilidades imediatas, o factoring estabiliza o fluxo de caixa, garantindo capacidade para cumprir obrigações pontuais como salários, impostos e pagamentos a fornecedores, reduz a pressão negocial com clientes e fornecedores, uma vez que a empresa passa a ter maior previsibilidade financeira, melhora os rácios financeiros da empresa, e permite aproveitar oportunidades de investimento ou negociação, sem estar condicionada pela morosidade de recebimentos.
Para empresas exportadoras, o factoring internacional à exportação representa uma mais-valia acrescida, tendo apoiado em 2024 mais de 5,3 mil milhões de euros em exportações nacionais. Ao antecipar o pagamento de faturas emitidas para clientes estrangeiros, este instrumento minimiza riscos comerciais e políticos inerentes a determinados mercados, facilita a entrada em novos países, graças à garantia de pagamento prestada por redes globais de factoring e protege contra incumprimentos e, em alguns casos, contra variações cambiais. Todas estas vantagens e serviços resultam em que quase 5% do total das exportações portuguesas sejam geridas e asseguradas pelo setor de factoring.
No caso de pequenas e médias empresas, que por vezes enfrentam constrangimentos no acesso ao crédito tradicional, encontram no factoring uma alternativa flexível e adaptada à sua realidade. Ao basear-se nas vendas já realizadas na economia real, este mecanismo financia diretamente a atividade comercial, sem necessidade de recorrer a garantias adicionais como hipotecas ou penhores.
Um setor em evolução
Originalmente associado a grandes empresas e volumes de faturação, a evolução contínua e a digitalização do factoring permitiu alargá-lo a todo o tipo de empresas e está a tornar o produto cada vez mais ágil, visível e integrado com os sistemas de faturação e gestão das empresas. Entre os principais impactos, destacam-se processos mais rápidos e fáceis de montar, uma vez que a submissão de faturas, a análise de crédito e a gestão de recebimentos são agora, em grande parte, automatizadas, reduzindo tempos de espera e erros administrativos. Existe também maior visibilidade e monitorização em tempo real, através de plataformas digitais que permitem às empresas acompanhar o estado das faturas cedidas, controlar a liquidez disponível e planear a tesouraria com maior precisão. Além disso, a interoperabilidade entre sistemas financeiros e plataformas de factoring simplifica o processo de cedência de créditos, evitando duplicidades e garantindo dados consistentes. As decisões são baseadas em dados, já que permitem análises preditivas sobre padrões de pagamento e risco de crédito, facilitando decisões estratégicas e permitindo uma análise de risco mais rigorosa.
O factoring não é apenas uma ferramenta de antecipação de pagamentos: é um parceiro estratégico da tesouraria que contribui para a estabilidade, competitividade e crescimento das empresas, seja no mercado nacional, seja na esfera internacional.
No seio da ALF, continuaremos a defender e promover este instrumento como parte de uma economia mais dinâmica e resiliente, capaz de responder aos desafios de um mundo empresarial em constante mudança, e que permite apoiar a tesouraria das empresas nas suas atividades em Portugal e no estrangeiro.




