Um ‘comboio’ de tempestades está a passar por Portugal, sem parar (n)as eleições que vão escolher o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, com algumas buzinadelas ao ‘descarrilar’ do Governo e um rasto de destruição antes do fumo branco.
Na freguesia de Vale da Pedra, no Cartaxo, o rio Tejo subiu e deixou vários acessos condicionados e casas parcialmente submersas, mas as cheias não são estranhas àquelas gentes, que recordam tempos mais difíceis.
José Rato vive em Vale da Pedra há mais de quatro décadas, e conta à Lusa que, apesar de assustadores, os últimos dias, marcados pelas cheias, não foram nada em comparação com o que se passou na freguesia em 1969 ou 1989.
“Não é nada a que o pessoal não esteja habituado. São coisas que acontecem quase todos os anos. É natural, o pânico não é assim tão grande. Os mais velhos estão preparados, os filhos é que já estão um bocadinho mais assustados”, afirmou.
José conhece bem o Tejo e assim que começaram as cheias conseguiu prever que as águas não iam chegar ao outro lado da rua – e não falhou.
“Em 1989 andei em casa com água pelo joelho e de barco em frente à minha porta. Todas as pessoas vivem aqui estão preparadas e já têm formas de levantar os móveis, televisões e frigoríficos”, relatou, enaltecendo a atuação dos bombeiros, proteção civil e da autarquia.
Já no que se refere aos apoios do Governo: “Aqui não chegou nada em 46 anos”, mas José Rato desdramatiza e diz que a população está tão habituada, que acredita que as ajudas não passam de “notícias”.
Ainda assim não se mostra desiludido com a política e defende que as eleições prosseguem, e bem, porque só quem está isolado é que não pode votar.
“Ir votar foi das primeiras coisas que fiz assim que me levantei”, precisou, mostrando-se orgulhoso.
Maria Luís, habitante de Vale da Pedra desde que nasceu, há 78 anos, disse que desta vez não vai votar, porque está ocupada a limpar os estragos da depressão Marta.
O vento forte e as cheias partiram as janelas da garagem de Maria, onde guarda móveis e a salamandra, inundando por completo o espaço, que agora serve de ‘abrigo’ para as ratazanas que se aproximam e que sobem ao pátio do rés-do-chão para comer as tangerinas da árvore da septuagenária.
Só sobram as cascas, que Maria tem de limpar todos os dias, juntamente com o verdete dos muros, após a subida das águas.
Do recheio da garagem nada se deve aproveitar. “Agora vai tudo fora”, insistiu.
Filha de pescadores, Maria Luís diz que só pode contar com a ajuda do filho.
“Cá não chega nada […]. Ninguém cá vem. Somos ricos”, ironizou, quanto ao ‘descarrilar’ do Governo, perante as tormentas.
Maria Luís volta a comentar o tema das eleições e diz que, “se o filho lá quiser passar”, ainda vai votar porque “é perto”, mas, por agora, fica em Vale da Pedra “entretida” até ao final do dia.
A pouco mais de 10 quilómetros (km), na zona da Azambuja, a chuva também deu tréguas até ao início da tarde e levou muitos eleitores ao Centro Escolar da Boavida, ainda assim, provavelmente menos do que o habitual.
“Acho que estão menos pessoas a esta hora [do que no ano passado]. Também deve haver muita gente a tentar reconstruir ou a salvaguardar os seus bens”, justificou Cláudia Cardoso.
Cláudia é mulher de um bombeiro, que não para em casa há quase uma semana para tentar resolver os problemas causados pela sucessão de tempestades que está a atravessar o país.
Na Azambuja, a situação não foi pacífica. Cláudia Cardoso fala de dias “um bocadinho complicados”, com a população a fazer ‘piscinas’ com as sacas de areia para tapar o “essencial” e proteger os seus bens.
Contudo, acredita que este é o novo normal e que as pessoas já começam a ficar preparadas.
“Não pensei muito nas eleições. Temos que ajudar as pessoas que mais precisam, mas se eles [Governo] assim decidem, eles é que sabem”, vincou.
Carlos Melão também votou no refeitório desta escola, onde se encontra grande parte das urnas, e, apesar de não registar prejuízos na sua casa, também tem uma habitação na zona de Leiria que ficou sem telhado e sem a chaminé. Arranjar mão-de-obra é um dos principais problemas.
“O meu filho mora lá perto e conseguiu arranjar umas lonas […]. A mão-de-obra em Leiria é difícil. A minha nora é de Aveiras e conseguiu, através de uns amigos, arranjar uns pedreiros. Em Leiria é impossível”, descreveu à Lusa Carlos Melão, que tinha acabado de colocar o voto na urna e estava à espera da mulher, que admite “não ler notícias”.
O azambujense alerta que o país “não foi todo abrangido por catástrofes” e que, por isso, adiar as eleições não faria sentido.
Na Azambuja a vida segue normal, mas a dois passos, no Porto da Palha — Lezirão, o mau tempo deixou um rasto de destruição.
Os habitantes foram deslocados e as construções rurais estão parcialmente submersas, tal como acontece com as árvores que têm apenas o cume à superfície.
Por lá, além de um ou outro curioso, ficam as vacas, que esperam que o pasto volte a rebentar.
Os portugueses são hoje, novamente, chamados às urnas para escolher o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República.
A segunda volta é disputada por André Ventura e António José Seguro, mas o resultado final ainda não será conhecido porque algumas localidades tiveram de adiar o sufrágio devido ao mau tempo.
Catorze pessoas morreram em Portugal desde a semana passada na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.







