Inovação e desenvolvimento sustentável potenciado pelas renováveis

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest
Fevereiro 5, 2026
12:29

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

 

Temos tecnologia e conhecimento para transformar o sistema energético de forma a melhorar a vida das pessoas em geral mas, segundo a IRENA, mais de 660 milhões de pessoas ainda não têm acesso a eletricidade a nível global e muitas mais têm outros tipos de constrangimentos energéticos. Para que a transição energética tenha sucesso esta tem de ser relevante para o dia a dia das populações.

Assim, as inovações a nível das energias renováveis podem e devem servir como catalisadores para o desenvolvimento sustentável. A transição energética global apresenta enormes oportunidades para transformar e modernizar os sistemas energéticos.

O acesso universal à eletricidade permanece um desafio nalgumas geografias. A combinação da redução de custos e a natureza descentralizada de muitas das soluções inovadoras ligadas às renováveis pode facilitar o acesso e aumentar a resiliência dos sistemas de energia. Por isso há que estabelecer prioridades em relação às soluções de forma a responder ao desenvolvimento sustentável e à justiça social.

Para haver transformação a inovação tecnológica tem de estar a par com a inovação a nível das políticas, regulamentações, mercado, planeamento e operação do sistema e até modelos de negócio. E fazer assim uma aproximação sistémica a nível da inovação.

Cada país tem diferentes pontos de partida técnicos para o desenvolvimento das energias renováveis e da sua integração na sua rede. As inovações devem, por isso, ser priorizadas com base no potencial impacto e viabilidade nos seus contextos e objetivos específicos. No entanto há dois objetivos fundamentais: sistemas energéticos resilientes e expansão do acesso à energia.

De um conjunto de ferramentas de inovação para o desenvolvimento sustentável promovido pelas renováveis, num trabalho que foi desenvolvido recentemente pela International Renewable Energy Agency, gostaria de salientar apenas algumas, que considero com maior pertinência para o nosso país. São elas:

  • Em termos de tecnologias e infraestruturas, temos a geração flexível de energia e armazenamento (baterias e sistemas de armazenamento de longa duração), as tecnologias digitais (sistemas inteligentes e autónomos), a eletrificação da economia e eficiência energética (hidrogénio verde) e mini-redes;
  • No que se refere a modelos de negócio e agentes de mudança, temos a centralização nos consumidores (comunidades de energia, produção descentralizada, serviço de armazenamento), os modelos de financiamento inovadores (crowdfunding, pacotes financeiros), energias renováveis em ambientes agrícolas e sinergias renováveis;
  • Relativamente aos mercados e regulamentação, o apoio fiscal e regulamentar (instrumentos fiscais ligados ao desenvolvimento, requisitos socioeconómicos nos leilões), o empoderamento dos consumidores (regulamentação das mini-redes, preços adequados para os prosumers) e serviços auxiliares inovadores;
  • Para o planeamento e operação dos sistemas, considerar a redução de perdas elétricas e a instalação de sistemas de compensação inovadores na rede, para além da melhoria da previsão das variáveis ligadas à produção renovável.

É necessária uma aproximação holística de forma a lidar com as barreiras à adoção de soluções inovadoras de energias renováveis. Assim deve-se investir nas pessoas e suas capacidades e nas instituições, de forma a elevar as capacidades domésticas neste domínio e a constituir cadeias de abastecimento locais, reduzindo a dependência. Seria também importante que o foco em termos de arquitetura financeira apontasse não apenas para o lucro mas também para o impacto em termos de desenvolvimento sustentável.

Será ainda importante centrar a narrativa não apenas na ação climática mas também na segurança energética, oportunidade económica, empoderamento dos stakeholders e proteção da natureza/ecossistemas.

Só assim poderá a sociedade “acompanhar” as transformações necessárias, sem grandes sobressaltos e de maneira equilibrada.

 

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