Por Vasco Magalhães, Diretor-Geral da MELOM e QMACO
O início de 2026 encontra o setor da reabilitação urbana num ponto de viragem. Depois de um período marcado por instabilidade económica, inflação elevada, subida das taxas de juro e forte pressão regulatória, o mercado entra agora num novo ciclo, mais exigente, mas também mais maduro. Um ciclo em que reabilitar deixa definitivamente de ser uma resposta pontual e passa a afirmar-se como uma estratégia estrutural para a habitação, para o investimento e para a regeneração das cidades.
O contexto macroeconómico continua a impor prudência. O custo do financiamento, embora mais estável, mantém-se acima dos níveis históricos, os materiais e a mão de obra não regressaram aos patamares pré-pandemia e a pressão sobre a rentabilidade obriga a decisões mais racionais e bem fundamentadas. Ainda assim, este novo enquadramento trouxe um efeito positivo: afastou abordagens especulativas e reforçou a importância do planeamento, da eficiência e da visão de longo prazo.
É neste cenário que a reabilitação urbana ganha um novo protagonismo. Num país com um parque edificado envelhecido, centros urbanos consolidados e escassez de oferta habitacional qualificada, reabilitar é hoje uma das formas mais eficazes de criar valor real. Valor para quem investe, para quem habita e para as cidades, que beneficiam da reutilização de infraestruturas existentes, da redução da pressão sobre o solo e de uma ocupação mais sustentável do território.
O mercado está mais informado e mais exigente. Proprietários e investidores procuram soluções que vão além da estética, privilegiando eficiência energética, conforto térmico e acústico, durabilidade dos materiais e previsibilidade de custos. A reabilitação deixou de ser vista como uma obra “menor” face à construção nova e passou a ser reconhecida como um processo técnico complexo, que exige conhecimento, coordenação e rigor na execução.
Do ponto de vista regulatório, 2026 continuará a ser um ano desafiante. Licenciamentos morosos, enquadramentos fiscais em evolução e exigências técnicas crescentes que obrigam a uma leitura atenta do contexto legal e a uma capacidade acrescida de adaptação. Para quem reabilita sem planeamento, estes fatores representam risco. Para quem atua com método e acompanhamento especializado, representam uma oportunidade clara de diferenciação.
Há também uma mudança evidente no perfil de quem investe. Cresce o interesse por projetos de reabilitação bem localizados, energeticamente eficientes e pensados para responder a novas formas de habitar, seja no arrendamento de longa duração, seja na valorização patrimonial sustentada. A lógica deixou de ser “reabilitar rápido” para passar a ser “reabilitar bem”, com impacto positivo ao longo do tempo.
Este novo ciclo favorece quem tem visão estratégica. Quem sabe ler o mercado, antecipar tendências, controlar custos e integrar soluções técnicas que aumentam a performance dos edifícios. A reabilitação urbana em 2026 não é apenas uma resposta à falta de habitação, é uma ferramenta de transformação económica, social e ambiental.
Mais do que nunca, reabilitar é uma decisão de longo prazo. E num ano que marca um novo começo, o setor tem a oportunidade de consolidar práticas mais responsáveis, mais eficientes e mais alinhadas com as reais necessidades das pessoas e das cidades. É esse o caminho para criar valor sustentável num mercado que já não aceita improvisos.




