A primeira experiência de trabalho de Luís Teles começou a 10.400 quilómetros de Lisboa, em Seul. Depois de ter terminado a licenciatura em Gestão na Universidade Católica e ao abrigo do programa Inov da AICEP, viajou para a capital sul-coreana e trabalhou durante um ano na agência pública de atração de investimento e promoção das exportações da Coreia do Sul. No regresso a Portugal, conseguiu o que desejava: trabalhar na banca. Integrou a equipa de project finance em infraestruturas do Banco Efisa, onde esteve envolvido em projetos de concessões de autoestradas. Entretanto, surge nova oportunidade de trabalhar fora do país. O convite, desta vez, veio de Londres. Na capital britânica, trabalhou no banco alemão DEPFA, nacionalizado em 2008. O plano, conta, era ficar por lá algum tempo na companhia da mulher, mas, em 2006, surge novo convite para voltar a Lisboa. Luís Teles passa então a assumir a área de project finance do Banco de Investimento do grupo Banif. Quatro anos depois é desafiado para ir trabalhar para Angola, país onde nunca tinha estado: “achei que era uma excelente oportunidade montar um banco de raiz, o que não é algo que se faça todos os dias. Cheguei em junho de 2010 e, entretanto, passaram 15 anos”.
“E cá estou. Uma instituição que ajudei a montar com 15 pessoas, hoje somos 800, e ocupamos a quinta posição do ranking no mercado angolano”. De acordo com Luís Teles, o Standard Bank Angola teve, em 2024, lucros de mais de 110 milhões de euros. “Somos um banco de sucesso, felizmente”, explica como introdução para a conversa das próximas linhas.
O QUE DIZ LUÍS…
As experiências profissionais no início da sua carreira, quer na Coreia do Sul, quer no Reino Unido, prepararam-no para a sua diáspora em África?
Bastante. Principalmente a minha primeira experiência na Coreia do Sul, onde a diferença cultural era enorme. Na altura, o país saía de uma grave crise cambial e procurava afirmar se no panorama internacional. A cultura de grupo coreana é muito diferente da portuguesa, que é mais individualista; lembro-me de várias pessoas que doaram ouro ao Estado para ajudar a nação. Hoje, veem-se os frutos desse esforço: tornou-se um país altamente desenvolvido. As vivências em Seul e em Londres dotaram-me de competências essenciais para o sucesso profissional e pessoal quando se vive no estrangeiro. Trabalhei numa instituição pública sul-coreana, sendo o único estrangeiro entre milhares de empregados, e isso ensinou-me a estar num ambiente multilíngue e a respeitar hierarquias diferentes das que estava habituado. Depois, em Londres, ao trabalhar num banco alemão, percebi o que era necessário para interagir com colegas de várias nacionalidades. Hoje, no Standard Bank, presente em 21 países africanos e com escritórios em Nova Iorque, Londres ou Dubai, a diversidade continua a ser a regra: numa manhã, atendo um cliente do Gana; à tarde, trato de assuntos com alguém de Nova Iorque; e ainda recebo clientes chineses ao final do dia. Cada um traz um modo distinto de estar e de trabalhar, e para sermos respeitados devemos aprender a posicionar-nos, compreendendo como as diferentes culturas funcionam.
E como é trabalhar em Angola?
Muito desafiante. Como se fala português, podemos pensar que o país funciona como Portugal, mas não. Há características do continente africano muito próprias que se têm de ter em conta e respeitar. Angola conquistou a independência há 50 anos, é um país orgulhoso, com ambição e energia. Os portugueses têm uma vantagem enorme em relação a outros povos, porque a grande maioria tem sensibilidade e capacidade de perceber nuances culturais que passam despercebidas à maioria das outras nacionalidades.
Consegue dar exemplos das diferenças na forma de trabalhar?
Desde logo, a vontade de provar. Existe aqui [Angola] uma grande vontade de demonstrar, de querer assumir e mostrar que é possível fazer bem e ter sucesso. As gerações com quem trabalho no banco são os primeiros na sua família a terem um curso superior, um emprego formal e um ordenado no fim do mês. Depois, há uma grande urgência de atingir objetivos, porque o país apresenta dificuldades na distribuição de riqueza e há uma grande percentagem da população que vive com rendimentos baixíssimos. Assim, é preciso criar crescimento económico para gerar emprego formal e absorver o crescimento da população, que é de 3% ao ano. A idade média nas empresas é muito inferior à de outros países, têm menos experiência. Às vezes, digo na brincadeira que preciso de pessoas com cabelo branco no banco. Em Portugal, é normal ter pessoas com 20, 30 anos de experiência e que ensinam os outros. Aqui, isso não existe e é difícil encontrar pessoas experientes, o que leva a uma grande necessidade de investir na formação.
Há menos estabilidade económica…
E existe mais volatilidade do que em Portugal ou noutros países europeus, onde temos estabilidade, previsibilidade, sem grandes variações dos indicadores macroeconómicos. Em Angola existem muitas alterações significativas, por causa de variações do preço do petróleo e o país está muito dependente dessas exportações. Em Angola, o setor petrolífero representa 95% das exportações e quando o preço cai, o choque é enorme a nível da inflação e das taxas de juro, com fortes impactos sociais e nas empresas, o que faz com que tenhamos de estar bem preparados para grandes variações.
E qual o seu estilo de gestão?
Acredito em várias coisas. A primeira, e mais importante, é que a estratégia empresarial tem de ter impacto emocional nas pessoas. As empresas funcionam com estratégias muito analíticas e muito baseadas em temas impessoais e que não tocam o coração das pessoas. Portanto, acredito que uma estratégia para ter sucesso tem de motivar. O segundo aspeto é o papel das pessoas. Uma das vantagens competitivas que temos no banco é a qualidade das nossas pessoas face à concorrência e investimos na formação delas. Temos uma iniciativa chamada Blue Energy composta por atividades lúdicas, desportivas e sociais. Temos também uma clínica médica própria, e investimos muito no seguro de saúde. Além disso, trabalhamos muito o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Realizamos webinars com psicólogos e psiquiatras, temos uma linha de apoio para as pessoas e criámos uma cultura de que não é aceitável trabalhar ao fim de semana, ou chamadas ou e-mails a partir de uma certa hora do dia. Mas, obviamente, estimulamos a responsabilização. Não gosto de dizer às pessoas o que têm de fazer. Em Angola, existe uma cultura muito hierárquica, mas não acreditamos que o respeito se ganhe pela hierarquia. Cultivamos o espírito de equipa. Quando um ganha, ganham todos, quando um perde, perdem todos.
Os conflitos existem sempre. Como os gere?
Estimulamos aquilo que chamamos de positive friction, algo que os portugueses não gostam muito: forçamos as pessoas a discordarem umas das outras, que debatam e discutam para que daí saia uma decisão melhor. Com esta metodologia, queremos normalizar o debate de ideias diferentes e ajudar a tomar melhores decisões. Até eu, muitas vezes, tento não dar a minha opinião demasiado cedo para não influenciar. Portanto, aqui pensamos na diferença entre intenção e impacto. Temos de pensar sempre bem entre o que queremos fazer e o impacto que vamos ter, e muitas vezes estes não estão alinhados.
E como é o seu dia a dia?
A gestão do tempo é um dos temas mais importantes e, neste momento, é o recurso mais escasso que tenho. Ao longo dos anos, aprendi a geri-lo de uma forma muito disciplinada, muito militar. Quando, há sete anos, comecei como CEO do banco não conseguia responder a todas as solicitações, reuniões ou conversas. Era uma loucura completa. Cheguei à conclusão que não era eu que geria a minha agenda, ia atrás dos acontecimentos. Portanto, a partir de um determinado momento, decidi que seria eu a gerir a minha agenda e libertá-la o mais possível para poder fazer as coisas que são efetivamente importantes. Começo o meu dia cedo, às 8 da manhã aqui no escritório, e tento sair cedo, dificilmente saio depois das 18 horas. Em média, tenho três a quatro reuniões por dia, interações com o nosso regulador, o Banco Central, muitas reuniões internas e também represento o banco na direção da Associação do setor. Mas tenho de ter tempo para falar com a minha família, e com os meus filhos, que estão em Portugal. E, felizmente, consigo ir a Portugal uma vez por mês, para estar com eles. Além disso, faço exercício duas a três vezes por semana, religiosamente.
E que tipo de exercício faz?
Tenho um personal trainer e faço fitness funcional, com exercícios que são muito importantes, já que a minha função é exigente e requer energia. E, para tal, é necessário comer e dormir bem. Para mim, é fundamental.
Tem hobbies?
Sim, viajo bastante com a minha família. Outro é ler, gosto imenso de livros sobre liderança. E gosto de futebol. Sempre que estou em Portugal vou ao estádio ver o meu clube. De resto, aqui em Luanda, tento socializar com amigos.
Disse que visita Portugal todos os meses, desliga-se da realidade do país ou não consegue?
Não. Vejo televisão portuguesa todos os dias e acompanho de perto o que se passa. Faço parte da direção do Conselho da Diáspora Portuguesa, estando muito próximo da realidade portuguesa. E tenho também uma grande proximidade com a embaixada de Portugal em Angola e com a AICEP. Gosto muito do meu país e, obviamente, tenho muitas saudades. Confesso que já vivi em cinco países e já visitei muitos e, até hoje, não encontrei nenhum país onde se viva melhor do que no nosso. Não existe. Acho que não damos valor ao que temos e apesar de termos muitos desafios que são conhecidos – sociais, políticos e económicos e os desafios que daí decorrem -, é um país maravilhoso.






