De Seixal a Tavira: três pessoas morreram à espera de socorro em apenas 48 horas

Três pessoas morreram em diferentes pontos do país num intervalo de 48 horas depois de esperarem longos períodos por meios de socorro, casos que reacenderam o debate sobre a capacidade de resposta do INEM e o impacto do novo sistema de triagem das chamadas de emergência.

Executive Digest
Janeiro 8, 2026
13:22

Três pessoas morreram em diferentes pontos do país num intervalo de 48 horas depois de esperarem longos períodos por meios de socorro, casos que reacenderam o debate sobre a capacidade de resposta do INEM e o impacto do novo sistema de triagem das chamadas de emergência. As situações ocorreram no Seixal, na Quinta do Conde e em Tavira e envolveram atrasos que variaram entre mais de 40 minutos e quase três horas.

De acordo com informação recolhida junto de fontes oficiais e relatos a que a agência Lusa teve acesso, os três episódios têm em comum a demora no acionamento ou na chegada dos meios de emergência, num contexto em que o novo modelo de classificação das ocorrências está a ser alvo de críticas por sindicatos e bombeiros.

Homem morreu no Seixal após quase três horas à espera de socorro
O caso mais prolongado ocorreu na terça-feira, no Seixal, onde um homem de 78 anos acabou por morrer depois de aguardar quase três horas pela chegada de meios do INEM. A chamada inicial para o 112 foi registada às 11h20, tendo a ocorrência sido classificada como prioridade 3, o que, segundo o novo sistema, prevê o envio de socorro até 60 minutos.

A fita do tempo indica que, poucos minutos depois, às 11h23, o homem apresentava sinais preocupantes: tinha sofrido uma queda, encontrava-se agitado, confuso, sonolento e prostrado. Apesar disso, mais de uma hora depois, pelas 12h48, não havia ambulâncias disponíveis nem na Cruz Vermelha do Seixal nem nos corpos de bombeiros de Almada e do próprio Seixal, que estavam ocupadas.

Face à demora, foi feita uma segunda chamada ao INEM às 13h29 para questionar a ausência de meios. Às 14h05, numa nova comunicação, foi indicado que a vítima se encontrava já em paragem cardiorrespiratória. Só quatro minutos depois, às 14h09, foi acionada a viatura médica de Almada, entretanto libertada.

O Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar confirmou os dados e admitiu que o novo sistema de triagem possa ter tido influência no desfecho. Para o presidente do STEPH, Rui Lázaro, “provavelmente contribuiu porque, consoante a prioridade que lhe foi atribuída, poderia ser enviado o meio até 60 minutos”, acrescentando que, antes da entrada em vigor do novo modelo, “assim que a ocorrência era criada, já se procuraria uma ambulância para ser enviada”.

O dirigente sindical alertou ainda que esta situação “confirma o risco de deixar as pessoas à espera” e revelou que o sindicato tem recebido denúncias diárias de atrasos desde que o sistema começou a funcionar, com tempos de resposta ultrapassados sem qualquer meio acionado.

Mulher morre na Quinta do Conde após mais de 40 minutos de espera
Na quarta-feira, uma mulher morreu na Quinta do Conde, no concelho de Sesimbra, depois de aguardar mais de 40 minutos por socorro. A vítima encontrava-se em paragem cardiorrespiratória quando os meios chegaram ao local.

Os Bombeiros Voluntários de Carcavelos foram acionados pelas 14h00 para prestar assistência a uma situação de dispneia, a cerca de 35 quilómetros da corporação. A equipa chegou às 14h44, altura em que a mulher já estava em paragem cardiorrespiratória, confirmou o comandante João Franco.

Este caso foi avançado inicialmente pela Rádio Renascença e surge na sequência de outros episódios semelhantes registados na mesma semana, reforçando as preocupações sobre atrasos no socorro em situações clínicas graves.

Homem de 68 anos morre em Tavira após mais de uma hora à espera
Também na quarta-feira, em Tavira, um homem de 68 anos morreu depois de ter aguardado mais de uma hora por meios de emergência. Segundo fonte da família, a vítima começou a sentir-se mal ao final da tarde, depois de ter ido à farmácia e tomado um xarope.

A primeira chamada de socorro foi feita às 18h07. Perante a ausência de resposta, os familiares voltaram a contactar o INEM para questionar a demora. Inicialmente, a ocorrência foi classificada como prioridade 2, que prevê resposta em até 18 minutos.

Às 18h42 foi finalmente acionada a primeira ambulância. Poucos minutos depois, às 18h47, uma terceira chamada informou que o homem estava já em paragem cardiorrespiratória, levando à reclassificação para prioridade 1, de resposta imediata. Foram ainda mobilizados a viatura de Suporte Imediato de Vida de Tavira, uma unidade de apoio psicológico do INEM e a polícia.

De acordo com os familiares, os primeiros meios só chegaram ao local mais de uma hora após o pedido inicial de ajuda.

Na sequência deste caso, o presidente do INEM rejeitou responsabilidades diretas do instituto, apontando como causas a falta de meios disponíveis e a retenção de macas das ambulâncias nos hospitais.

Novo sistema de triagem sob forte contestação
O novo sistema de atendimento do INEM, em vigor desde o início do ano, introduziu cinco níveis de prioridade — emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente e não urgente — à semelhança da triagem hospitalar. A classificação resulta da avaliação clínica feita durante a chamada para o 112.

Segundo o modelo, situações emergentes implicam resposta imediata, os casos muito urgentes devem ter meios no local até 18 minutos, os urgentes até 60 minutos e os pouco urgentes até 120 minutos.

No entanto, bombeiros e sindicatos têm criticado o sistema, afirmando que a definição rígida de tempos por prioridade está a deixar doentes à espera, mesmo quando existem ambulâncias disponíveis. Uma reportagem da SIC revelou recentemente um caso em Tábua em que os bombeiros responderam de imediato a um pedido de ajuda, apesar de o INEM ter indicado ao utente que a ambulância poderia demorar até duas horas.

Os três óbitos registados em apenas dois dias reforçam as críticas e colocam pressão adicional sobre o sistema de emergência médica, numa altura em que profissionais alertam para o risco de atrasos fatais na resposta a situações clínicas graves.

*Com Lusa

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