Por Nuno Leal, Co-CEO do Doutor Finanças
O movimento de redução do número de balcões que a banca levou a cabo nos últimos anos teve os seus frutos no que respeita à eficiência e rentabilidade do setor bancário, mas acabou por se traduzir numa perda de capilaridade geográfica que foi, em grande parte, preenchida pelos intermediários de crédito, que mais do que duplicaram nos últimos cinco anos.
Este crescimento do número de intermediários permitiu que não se sentisse uma quebra no serviço e acesso ao crédito, mas colocou novos desafios ao regulador. O crescimento foi de tal ordem que acabou por ser algo desorganizado e até desregulado. O regulador pode (e deve) ter um papel mais ativo, para garantir que os intermediários sabem o que estão a fazer, que percebem efetivamente de intermediação. Não basta estar no mercado, é preciso estar preparado para o fazer com responsabilidade.
É neste contexto que faz sentido que o mercado caminhe para alguma concentração. Que haja maior organização em redes, porque isso dá mais robustez ao setor e maior segurança ao regulador. Reduz o risco regulatório e permite um controlo de qualidade mais eficaz. Sejamos realistas: o regulador não vai conseguir supervisionar os cerca de 5.800 intermediários de crédito (dos quais 2.200 operam especificamente no segmento de crédito habitação) de forma próxima e eficiente. Por isso, é fundamental que o próprio setor se organize e eleve os seus padrões.
Olhando para o futuro, o papel dos intermediários deverá continuar a consolidar-se, contribuindo para descomplicar o acesso ao crédito e a reduzir as dores dos processos para o consumidor final. Os intermediários de crédito operam em parceria com os bancos, assentando a sua oferta de valor no serviço e não no produto, pois este não está nas suas mãos, mas sim dos parceiros com quem trabalha. Ao focar no serviço, o intermediário está numa posição ímpar para oferecer uma opinião isenta e personalizada. Se o intermediário conseguir descomplicar e dar uma opinião imparcial, quando o cliente chegar ao banco é porque aquela é, de facto, a melhor opção para ele.
Este papel ajuda a dar uma imagem mais limpa, transparente e honesta ao setor financeiro, beneficiando todos os “players”. Isto aplica-se à intermediação de crédito como a qualquer outra. Basta pensarmos no mercado automóvel: o que oferece um stand que representa uma única marca versus um que trabalha com várias? A diversidade e a imparcialidade são, por si só, um valor acrescentado.
E o papel dos intermediários não termina aqui. Têm também um contributo importante na digitalização dos processos. O setor da concessão de crédito continua a seguir leis antigas e desajustadas da realidade atual. Entretanto, o mundo mudou, e os intermediários podem ajudar a fazer essa mudança do seu lado, sem que os bancos tenham de a fazer sozinhos. Têm a capacidade de construir processos muito mais ágeis, mais robustos e mais seguros. Podem entregar aos bancos o produto final através de API, com análise prévia de risco feita e toda a documentação reunida e validada. Quando chega ao banco, o processo encontra-se numa fase mais avançada, sendo mais célere. Não precisa de começar do zero, nem de consumir tempo e recursos adicionais.
Este é o caminho para um mercado mais maduro, mais eficiente e mais justo. Um mercado onde todos – reguladores, bancos, intermediários e consumidores – saem a ganhar.




