Por Alfredo Valente, CEO da iad Portugal
Em pleno período de férias, o tema da segunda habitação surge com naturalidade, não apenas como assunto de temporada, mas como uma tendência com impacto crescente no mercado imobiliário nacional e internacional. Trata-se de um segmento que combina emoção e racionalidade: é investimento, mas também memória; é planeamento patrimonial, mas também fuga ao quotidiano. Para muitos portugueses, e para emigrantes que regressam, a segunda habitação é um reencontro com as origens, sejam elas a casa dos avós, o mar que sempre esteve no imaginário ou a serra onde se desligam os telemóveis. Há aqui um “mercado da saudade” que não se explica apenas por métricas de rentabilidade, mas por um apelo emocional que continua a ter enorme força.
Ao mesmo tempo, para outros compradores, a aquisição de um segundo imóvel é uma forma de diversificar património e criar rendimento. O arrendamento turístico, cada vez mais presente, permite que o proprietário usufrua da casa parte do ano e rentabilize o imóvel no restante, conciliando lazer com retorno financeiro. Essa dupla lógica, emocional e racional, explica porque este segmento não só resiste, como cresce, mesmo perante oscilações económicas e variações nas taxas de juro.
Historicamente, há zonas que mantêm uma procura sólida, como o Algarve, a Costa Alentejana ou o Minho. No entanto, novas geografias começam a ganhar protagonismo, como pequenas aldeias no interior Centro e Norte, vilas alentejanas e até os Açores, que têm beneficiado de maior visibilidade e acessibilidade. Nestes casos, a segunda habitação pode ter um papel regenerador: reabilitar património abandonado, atrair novos residentes sazonais e estimular negócios locais que, de outra forma, poderiam não sobreviver.
Convém desmistificar a ideia de que este fenómeno provoca sempre pressão sobre o mercado de habitação tradicional. Muitas destas localizações não competem diretamente com a procura de primeira habitação. Aldeias despovoadas ou localidades turísticas sazonais não são, na maioria dos casos, procuradas por quem precisa de uma residência permanente. Há, contudo, exceções como pequenas cidades ou vilas próximas de centros urbanos onde a pressão pode ser real e onde o planeamento público se torna essencial para evitar desequilíbrios.
O potencial económico deste segmento é significativo. Para além das obras de reabilitação, que dinamizam setores como a construção e os materiais, há o impacto no comércio local, na restauração, nos serviços e até no emprego sazonal. Uma segunda habitação bem integrada no território pode ser um motor de revitalização de comunidades envelhecidas e com baixa densidade populacional. No entanto, para que esse potencial se concretize, é fundamental que municípios e governo central atuem de forma coordenada, com políticas de ordenamento, incentivos adequados e regulamentação clara.
O teletrabalho, a crescente longevidade e a procura internacional reforçam a sustentabilidade desta tendência. Cada vez mais, famílias encaram a segunda habitação não apenas como um investimento, mas como um projeto de vida para a reforma ou um refúgio em qualquer fase. O desafio está em transformar esta procura num motor de desenvolvimento, e não num fator de desigualdade no acesso à habitação. Afinal, a segunda habitação é mais do que um bem imóvel: é uma oportunidade de ligar passado e futuro, afetos e estratégia, nostalgia e visão de longo prazo.




