“O possível impacto que estas políticas proteccionistas possam ter connosco é muito direto”, admite o Presidente da APCOR

O impacto da eleição de Trump na economia e negócios de Portugal. Paulo Américo Oliveira, Presidente da APCOR.

Executive Digest
Março 18, 2025
12:13

«A primeira palavra que me ocorre é apreensão pelo conteúdo do que vamos ouvindo e do que poderá vir a acontecer», é assim que Paulo Américo Oliveira, presidente da Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), adjetiva a estratégia de comércio internacional que Donald Trump tem lançado para as manchetes dos jornais, quase todos os dias. Mas nem só as eventuais taxas preocupam o setor. «Há uma questão de contexto cultural, ou seja, há uma tentativa da Administração Trump de colocar em segundo plano questões como as alterações climáticas, a sustentabilidade. Tudo o que tenha a ver com o contexto planetário e a sustentabilidade do planeta, de uma maneira muito longo prazo, muito indireta, também nos afeta». Quanto ao negócio, cerca de 16%, 17% das exportações portuguesas de cortiça têm como destino os Estados Unidos. «Por isso, o possível impacto que estas políticas proteccionistas possam ter connosco [cortiça], é muito direto». O negócio da cortiça está dividido pela área da rolha, que tem maior relevância e que está ligado ao mercado do vinho, «com dinâmicas associadas a essa área».

E há a área das multiplicações, ou seja, aplicações de cortiça diferente do produto rolha, «onde as dinâmicas são mais diretas», explica acrescentando que no caso concreto do mercado norte-americano e na área das aplicações as possíveis políticas protecionistas poderão ter um impacto muito direto, «estamos a falar de produtos para a construção civil, estamos a falar de produtos para a indústria aeroespacial, para a indústria da ferrovia, para isolamentos térmicos e acústicos. Portanto, uma multiplicidade de aplicações que, por definição, têm substituição direta de produtos concorrentes americanos. Ou seja, a possibilidade do Sr. Trump ser bem-sucedido é muito forte, porque efetivamente a substituição é fácil». Já na área ligada aos vinhos há uma parte do negócio da cortiça que fornece produtores norte-americanos. «Estamos a falar do maior mercado de consumo de vinho do mundo, em termos de volume consumidos, há uma produção local muito forte, concentrada na Califórnia, portanto, apesar de também poderem vir a sofrer, a sua substituição por outros produtos de produção local é mais difícil».  

Explica, no entanto, e em concordância com o que foi dito umas linhas anteriores neste mesmo texto, «uma possível taxação no mundo do vinho e, de facto, uma redução do consumo de vinho. Sim, claro. Caso concreto, hipotético, uma garrafa de vinho que custa 20 dólares, começar a custar 25 e aí talvez o consumidor pense duas vezes, se consome duas ou uma garrafa numa noite, e poderá haver um impacto de volume que pode ser associado a uma subida de preço dos vinhos importados».

A valorização do dólar
Para contrapor às notícias que vêm dos Estados Unidos, Paulo América Oliveira explica que o efeito cambial, nos últimos meses, tem sido favorável aos exportadores. «Há uma valorização do dólar, associado também a toda esta temática da administração de Trump e a tudo o que ela tem impactado, ou tem denunciado mais do que impactado, que tem levado a uma valorização do dólar. No limite, por absurdo, se fosse na mesma dimensão, teria impacto nulo. O que não nos parece que seja o caso, porque fala-se de taxas alfandegárias possíveis de 20%, 25% para vinhos de alta gama, que aliás é o que caracteriza sobretudo o mercado americano em termos de tipologia de vinhos, e a taxa de gama de facto não tem tido essa mesma dimensão de evolução».

Questionado sobre o que poderá o Governo português fazer para contrariar eventuais medidas, o responsável da APCOR acredita que apesar das decisões desse género estarem a um nível superior ao das associações, não impede que exista uma reação imediata, «perante um possível cenário de redução de escala de um determinado mercado como os Estados Unidos, temos que ir à procura de outras geografias. Ou seja, no plano puramente do negócio, aquilo que a APCOR pode fazer e que os seus associados devem de fazer é de facto ir à conquista de novos mercados». Mesmo assim, explica que o bloco europeu deve responder a Trump, «temos que contra-argumentar com as mesmas lógicas simplistas e pensar o que temos que dar para que a balança comercial seja mais equilibrada, sem perder ou até fomentando produtos europeus. Francamente, é muito básico, mas acho que do outro lado temos uma pessoa básica».

Quer os setores exportadores representados neste artigo, quer outros vivem na expetativa quase diária do que irá acontecer e como serão afetados. Paulo Américo Oliveira, da APCOR acredita que a União Europeia tem de «tomar uma posição única uma visão única, propostas claramente para quem gera um Estado-nação como uma empresa, como o faz Donald Trump». Já a Vini Portugal que tem visto crescer as vendas para lá do chamado “mercado da saudade” dos emigrantes rádicos nos EUA, com maior presença em Nova Iorque, Chicago ou nos estados da Flórida e Texas acredita que a Europa deve negociar em bloco. Aguarda-se assim novos episódios vindos dos Estados Unidos na mesma linha que Trump está a habituar o mundo. Que definitivamente não é o mesmo desde que tomou posse.

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