Os Santos Populares estão à porta, decorrendo durante o mês de junho, em Lisboa e no Porto. Este ano os festejos vão realizar-se, ao contrário dos dois anteriores, e quase sem regras da Covid-19, nomeadamente o uso de máscara.
Tudo isto acontece numa altura em que as infeções, mortes e internamentos pela doença viral têm subido todos os dias, algo que, segundo especialistas ouvidos pela Multinews pode ter impacto na situação pandémica.
Gustavo Tato Borges, Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), alerta que “a realização destas festas pode ser um fator de incremento dá disseminação do vírus, caso se verifique a presença de muitas pessoas num local com pouco espaço, mesmo que ao ar livre”.
“Desde o alívio do uso obrigatório de máscaras, foi possível observar que os festejos da Queima das Fitas no Porto ajudaram o vírus a espalhar-se pela população, agravando a incidência da doença. E esta situação pode ser continuada com os diversos festejos populares que irão ocorrer por todo o país”, sublinha.
Segundo o médico de saúde pública, estes eventos podem “agravar a realidade epidemiológica nacional, com um aumento do número de novos casos e aumentar a probabilidade de infetarmos uma pessoa vulnerável que pode desenvolver doença grave ou morte”.
No mesmo sentido, Manuel Carmo Gomes, epidemiologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), considera que “os santos populares podem evidentemente originar uma interrupção na descida da incidência e mesmo um recrudescimento, mas é impossível prever até que ponto”.
Henrique Oliveira do Instituto Superior Técnico também destaca o impacto destas festas. “Nestes eventos, os suscetíveis que ainda se podem infetar vão fazê-lo, e por isso, a queda vai ser mais vagarosa do que seria previsível se não houvessem festas populares”.
“Os eventos vão provocar surtos e fazer com que a descida seja mais lenta, ou seja, vamos ter uma incidência elevada durante algum tempo, pelo menos mês de junho e inícios do mês de julho”, esclarece, adiantando que “o pico de infeções vai ser atingido por esses dias (meados de junho) e vai prolongar-se por mais tempo”.
Impacto não será “relevante” o suficiente para impor medidas
Apesar de admitir um recrudescimento, Carmo Gomes sublinha que “o aumento do número de casos desacelerou significativamente nos últimos dias, não vamos chegar sequer a 35 mil casos dia, numa média a sete dias”.
“Os hospitalizados e óbitos ainda estão a aumentar, mas alguns dias após a incidência começar a descer, também devem iniciar a descida”, por isso, “os santos populares não justificam voltar atrás nas medidas não farmacológicas”, defende.
Opinião semelhante tem Bernardo Gomes, professor na Faculdade de Medicina e no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). “Não julgo que seja um risco distinto do que já ocorre e estamos a falar de eventos ao ar livre, num contexto em que já temos elevada cobertura vacinal”.
“Não há contexto social, a meu ver, necessário para impor restrições a este nível”, considera, sublinhando que “face à evolução da pandemia e número de infetados até às datas festivas, não é expectável um impacto relevante destas festas”.
E quais as recomendações para quem frequenta estes eventos?
“O grande controlo neste tipo de festas será as pessoas tentarem manter-se o mais afastadas possível e usarem máscara. Porque libertando o uso de máscara de forma total, estas grandes aglomerações de pessoas dão origem a surtos. Como não há regras nesse sentido, vai da responsabilidade de cada um”, aponta Henrique Oliveira.
Já Carmo Gomes destaca como “crucial que os portugueses que ainda não fizeram o reforço (terceira dose) o façam logo que possível (quatro meses após a ultima infeção, se foi caso disso)”.
Recomenda-se ainda “que sejam evitados espaços fechados e que pessoas vulneráveis não se exponham a grandes concentrações de pessoas. Sendo estas festas ao ar livre, o risco diminui e genericamente apenas recomendaria que se procurasse formas de espalhar mais as pessoas pelo espaço disponível”, defende Bernardo Gomes.
“Devemos ir protegidos, com a vacinação em dia, com o uso voluntário de máscara durante o convívio, com o respeito pela presença do próximo, evitando grandes aglomerados. E, claro, não ir se temos qualquer tipo de sintomas que possam indicar uma suspeita de infeção. O respeito de todos estes aspetos, podem ajudar a minimizar o risco de criar eventos superdisseminadores do vírus”, conclui Tato Borges.














