Entre o colapso e a exaustão: quatro cenários para a guerra na Ucrânia

Colapso do exército russo ou do ucraniano é avançado como uma possibilidade para o fim do conflito

Francisco Laranjeira

A pergunta assalta diversos especialistas: quanto tempo vai durar a guerra de Putin? Durante semanas, o presidente russo tinha essa decisão nas mãos mas, entretanto, esse ‘poder’ começou a mudar. Dada a perspetiva de Moscovo em reivindicar uma vitória mínima, com Mariupol já na sua posse e todo o território de Luhansk dentro do alcance, há algo que se move na Ucrânia, segundo revelou o jornal espanhol ‘El Mundo’.

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Zelensky e os cidadãos ucranianos dizem o contrário: vão tirar os russos dos territórios ocupados a qualquer custo para fazer regressar as fronteiras de 24 de fevereiro. O Instituto Sociológico Internacional de Kiev assegurou que 82% dos os ucranianos não querem abrir mão de territórios em troca da paz. Ou seja, traduzindo: vão continuar a lutar até os russos serem expulsos, o que significa que Putin não terá mais a última palavra para decidir quando termina a sua invasão.

Por entre a guerra, os dois exércitos mantêm agora intensos combates e enorme desgaste no leste do país. Assim, que novas possibilidades se abrem neste contexto? Estes são os possíveis cenários para o fim do conflito.

Colapso do exército russo

Esse cenário, de certa forma, já ocorreu. A tentativa militar de conquistar Kiev foi um verdadeiro fracasso de planeamento deficiente, inteligência intoxicada pelo inimigo, tropas mal treinadas, táticas e armas ultrapassadas. O colapso das tropas russas, a 15 quilómetros da capital, pode repetir-se em outras frentes. Após semanas de progresso mínimo com grandes perdas no Donbass, Michael Martin, do Departamento de Estudos de Guerra do ‘King’s College London’, advertiu que as tropas Z “podem entrar em colapso em algumas semanas”. Agora que os objetivos são mais modestos (conquistar todo o território de Donetsk e Luhansk) foram necessárias semanas para avançar 25 quilómetros.

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Se formos aos números objetivos, a Rússia terá perdido 700 dos 2.700 tanques com os quais invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro. Os serviços de inteligência britânicos avançam que um terço da força inicial da ofensiva foi neutralizada pelos ucranianos, ou seja, as mesmas baixas em três meses do qeu a 9 anos de guerra soviética no Afeganistão.

Se somarmos isso à chegada das armas ocidentais, o colapso russo não é um cenário descartado e pode representar a derrota final russa e uma mudança de regime em Moscovo.

Colapso da Ucrânia

Ninguém sabe ao certo as vítimas da Ucrânia mas os cemitérios estão a começar a ficar sem terra para tantos mortos. Pela própria natureza da guerra, o atacante sofre sempre mais perdas do que o defensor, mas a Rússia tem um maior músculo de armas. Os analistas, no início, superestimaram as capacidades russas mas estas não devem ser subestimadas. A grande maioria da indústria da Ucrânia foi destruída por mísseis russos, a economia pode cair 30% este ano e o país pode sofrer grandes problemas de stock em gasolina e outras matérias-primas básicas para sustentar o esforço de guerra.

Neste momento, os russos tentam cortar a artéria que alimenta a frente ucraniana de Severonodentsk. Se os ucranianos não souberem recuar de forma ordenada, aquele pequeno movimento de xadrez pode custar a Kiev a Batalha de Luhansk. Já houve uma rendição em massa em Azovstal, com mais de mil soldados ucranianos em mãos russas, e não podem perder muitos mais.

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O exército da Ucrânia pode entrar em colapso? Não parece muito provável a curto prazo enquanto os aliados ocidentais continuarem a fornecer armas e financiamento. Mas a longo prazo é outra coisa. Putin conta com o esgotamento da UE e a sua tendência à realpolitik. As fraturas europeias já surgiram na Hungria, a Alemanha pagará pelo gás em rublos e Macron continua a desempenhar esse papel indefinidamente. Se os russos conseguirem resistir por alguns meses, esse cenário pode tornar-se muito real.

O conflito congela

A guerra voltou ao lugar onde se iniciou em 2014: Donetsk e Luhansk, ou seja, o Donbass. O esgotamento é visível em ambos os exércitos após três meses de ofensivas não vistas desde a II Guerra Mundial. Mike Ryan, general reformardo do exército dos EUA, assegurou que “a Rússia está a perder o ímpeto das ofensivas, devido ao pouco progresso e que inevitavelmente terá de acontecer uma estratégia defensiva, que encerra outros tipos de desafios”.

A Ucrânia mostrou que é capaz de lançar operações limitadas de contra-ataque para recuperar terreno, como em Kharkov, onde empurraram os russos quase até à fronteira, mas é difícil para eles consolidar os feitos e manter a ofensiva para desferir golpes definitivos. Nesse cenário, em aquele que nenhum dos dois lados é capaz de fazer avanços significativos, o conflito pode ser congelado no Donbass, como aconteceu em 2014.

Cessar-fogo

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É o mais improvável de todos. Os canais de negociação entre os dois países estão ‘fechados’, ou seja, um diálogo de surdos. A Ucrânia pede a saíde de todas as tropas russas enquanto o Kremlin não abandona a sua ‘realidade paralela’ da “desnazificação”.

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