Entrevista: O verdadeiro impacto da Covid-19: “Portugal perdeu 279 anos de vida saudável por 100 mil habitantes”, explica especialista

Sara Monteiro Pires explica à ‘Multinews’ estudo recente que mediu o efeito da pandemia na população nacional

Francisco Laranjeira

A pandemia da Covid-19 em Portugal teve ‘custos’ que ainda estão sob cálculo. Um estudo recente apontou que o nosso país viu ‘perderem-se’ 279 anos de vida por cada 100 mil habitantes. A conclusão chegou após um grupo de pesquisa ter estimado os DALYs (‘disability adjusted life years’) em 16 países europeus, tendo para isso utilizado os dados agregados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Grupo Banco Mundial; No que toca aos números, como foi referido, a Itália ‘lidera’ o panorama europeu, com 650 DALYs por 100 mil habitantes (ou seja, 650 anos perdidos nesse universo), seguido da República Checa, com 534. Portugal ocupa o 7º posto europeu, com 279 DALYs por 100 mil habitantes.

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Sobre o estudo publicado, Sara Monteiro Pires, investigadora portuguesa da Universidade Técnica da Dinamarca, falou à ‘Multinews’ sobre o resultado. Licenciada em Medicina Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, chegou à Dinamarca para fazer um doutoramento em epidemiologia no final de 2005 (na Universidade de Copenhaga). “A minha principal área de investigação tem sido as doencas transmitidas por alimentos (que também são maioritariamente zoonóticas), mas expandiu-se para outras doencas relacionadas com a alimentação e não só”, explicou a especialista. “De uma maneira geral, o meu objetivo é gerar evidência para a gestão de riscos e a tomada de decisões em matéria de saúde pública e políticas de segurança alimentar através da análise de dados, epidemiologia, avaliação do impacto na saúde e uma gama de abordagens multidisciplinares.”

O cálculo apresentado no estudo apontou que Portugal registou 279 DALYs por 100 mil habitantes. Na prática, em que se traduz esse número?

A métrica ‘Disability Adjusted Life Year (DALY)’ reflete a carga da doença integrando indicadores de incidência da doenca, severidade e duração dos casos, e mortalidade, tendo em conta a idade dos pacientes quando morrem, e a respetiva perda de anos de vida em comparação com a esperanca média de vida da população. Assim, uma carga de 279 DALYs a cada 100.000 habitantes demonstra que, ao nível da população, 279 anos de vida saudável foram perdidos ou por mortalidade ou por experiência de sintomas durante um período de tempo. Se pensarmos em três pessoas experenciaram a Covid-19 de maneira diferente como exemplo:

– Um homem de 50 anos sofreu infeção grave pela Covid-19 e foi hospitalizado. Demorou seis semanas para recuperar, mas não sofreu mais problemas. A doença levou à perda de 0,02 anos de vida saudável. DALY = 0.02

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– Uma mulher de 45 anos apresentou sintomas de infeção pela Covid-19 e isolou-se em casa. Recuperou passadas duas semanas, mas sofreu mais seis semanas de fadiga. No total, perdeu 0,03 anos de vida saudável. DALY = 0.03

– Uma mulher de 60 anos morreu pela Covid-19. Tendo vivido até essa idade, a sua esperanca de vida era de 90,3 anos, e portanto perdeu 30,3 anos devido à mortalidade prematura. DALY = 30.3

Se o total de casos na nossa população fosse apenas estas três pessoas, o DALY total seria 30.35 (0.02+0.05+30.3). Quando comparamos entre países ou entre grupos da população, ajustamos o resultado por 100.000 habitantes – para podermos comparar, por exemplo, uma população de mais de 10 milhões de habitantes (como Portugal) com uma de 5,7 milhões (Dinamarca).

Esta avaliação acaba por ser positiva?

Este tipo de estimativas não são positivas ou negativas, mas servem como medida para avaliar a carga de doença a nível da população, como se compara com outros países, e como progride em períodos de tempo diferentes. Por exemplo, se a análise for repetida para o período de tempo após a introdução da vacinação, podemos esperar que os DALYs sejam reduzidos substancialmente, ainda que o número total de infeções se tenha mantido bastante alto. Esta redução será reflexo da redução da severidade da doenca e da mortalidade.

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No universo de países analisados, Portugal surge em 7º lugar na tabela dos países em análise. Isso é reflexo das políticas assumidas pelo Governo para conter a pandemia da Covid-19?

Não posso comentar as medidas assumidas pelo Governo – uma comparação exigiria a comparação com as medidas dos outros países, assim como a capacidade geral dos sistemas de saúde, a prevalência de doenças pré-existentes, a aderência da população à vacinação, entre outras. O que os resultados refletem é que, entre os países que o estudo incluiu, Portugal está aproximadamente a meio da tabela em termos de carga de doença na população.

Em que medida estas métricas podem influenciar a adoção de políticas em futuras – ou na atual – pandemia?

Métricas como o DALY – e estudos de “burden of disease” são úteis para estabelecer prioridades de saúde pública na população (integrando os indicadores que referi acima). Para além disso, podem ser utilizadas para medir o efeito das medidas implicadas na saúde geral da população. O exemplo da vacinação que dei acima é uma boa ilustração. Para além de serem utilizadas em situações de pandemia – e penso que esta foi a primeira vez -, este tipo de avaliação também pode ser utilizado para guiar políticas direcionadas a outras doenças – como doenças associadas com o estilo de vida (alimentação, uso de tabaco, etc).

Pelo que foi possível ler no artigo que referiu o estudo, esta avaliação é recente. Sugere-se no entanto que se possa tornar ‘regra’. É sua convicção que assim venha a ser?

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Essa é a minha expectativa (ou esperança), assim como a de outros investigadores a trabalhar em ‘Burden of Disease’. Este tipo de estudos já está bastante estabelecido para outras doenças, e o ‘Global Burden of Disease Study’ tem tido um papel importante na geração de estimativas para todos os países e maioria das doenças, assim como na divulgação da metodologia (e do seu potencial). No futuro, a aplicação de estudos a nível nacional – utilizando dados gerados e geridos a nível local, assim como o conhecimento de peritos nacionais – vai permitir um aumento da robustez dos resultados.

Além da Covid-19, temos agora uma hepatite misteriosa e um surto de varíola dos macacos. Coincidência?

Há muitas doenças zoonóticas (ou seja, que passam dos animais às pessoas) a circular em países diferentes e por várias rotas. Quando um agente novo comeca a circular, as autoridades de saúde pública e a comunidade científica reagem rapidamente para controlar a situação.

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