Roma Antiga encerra ainda diversos mistérios mas o silphium está entre os mais intrigantes – os romanos adoravam esta erva como atualmente se gosta de chocolate. Era usada como perfume, remédio, afrodisíaco ou transformado em condimento que era despejado em quase todos os pratos. Era tão valioso que Júlio César escondeu mais de meia tonelada no seu tesouro. No entanto, menos de um século depois, na época de Nero, foi extinto e durante quase 2 mil anos as pessoas ficaram intrigadas com a causa.
Os investigadores acreditam agora que terá sido a primeira vítima das mudanças climáticas provocadas pelo homem, segundo apontou o jornal britânico ‘The Guardian’, e alertam que deve-se prestar atenção ao exemplo do silphium (sílfio) ou correr o risco de perder plantas que são a base de muitos sabores modernos.
Paul Pollaro e Paul Robertson, da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, apresentaram um estudo publicado na revista ‘Frontiers in Conservation Science’, no qual apontam que o crescimento urbano e o desmatamento que o acompanhou mudaram o microclima local onde o sílfio cresceu mostra que o crescimento urbano e o desmatamento que o acompanha mudaram o microclima local onde o sílfio cresceu. “Verá muitas vezes a narrativa de que se terá extinguido por causa de uma mistura de colheita excessiva e também pastoreio excessivo – os rebanhos gostavam muito e tornavam a carne mais valiosa”, apontou Pollaro. “O nosso argumento é que, independentemente do quanto foi colhido, se o clima estivesse em mudança o sílfio seria extinto de qualquer maneira.”
O sílfio era um arbusto que crescia selvagem apenas numa faixa de terra de 48 quilómetros de largura e 200 quilómetros de comprimento na Cirenaica, no que é hoje a Líbia. Os antigos gregos, que colonizaram o território do norte de África por volta de 630 aC, tentaram e falharam durante séculos para cultivar o sílfio. “Falaram sobre as frustrações de tentar transplantá-la. Tinha esses requisitos microclimáticos e não conseguiram descobrir.”
Foram ordenados limites à quantidade de sílfio que poderia ser colhido e cercaram as áreas onde crescia, segundo revelou Pollaro. “Há evidências de que eles sabiam que estava em declínio e tentaram preservar a planta. Mas todas essas táticas acabaram sendo irrelevantes, porque mudaram o microclima.” O sílfio crescia ao longo do lado mais seco e voltado para o mar do planalto de Jebel al-Akdar, na Líbia, uma reginão fértil e florestada. Após a colheita, era exportado para Roma. “É difícil exagerar a importância do silphium porque os romanos em particular eram absolutamente obcecados por ele”, referiu Pollaro. “Cunhavam moedas na antiga Líbia que tinham sílfio na frente da moeda e o deus ou o rosto do imperador no verso.”
Heródoto, Teofrasto e Plínio, o Velho, escreveram extensivamente sobre a planta – Plínio exaltou-o como uma cura para mordidas de cão, veneno de cobra e hemorróidas. Podia ser usado como anticoncepcional e a própria planta era um vegetal valorizado. As exportações traziam riqueza, o que significava expansão. Os gregos e os romanos, que assumiram o controle da Cirenaica por volta de 90 aC, derrubaram florestas no planalto para construir habitações e limpar terras para cultivos para a população crescente. O desmatamento mudou os padrões de chuva, causando uma maior erosão nas encostas onde o sílfio crescia, o que Pollaro garantiu ter sido confirmado por escavações na caverna Haua Fteah, perto de Benghazi. “De certa forma, o valor do sílfio foi a causa do seu próprio declínio”, ilustrou Pollaro.
A mudança climática moderna está a ter um impacto semelhante. A asafoetida, uma seiva extraída de uma erva que cresce selvagem em partes do Afeganistão e países vizinhos, é amplamente utilizada na Índia – mas a sua pegada está a diminuir devido a mudanças no clima local.
O café, cenoura e arroz também estão em risco, segundo apontou Monique Simmonds, de Kew Gardens, no Reino Unido. “Contamos com entre 10 e 12 espécies para a maior parte de nossa comida”, apontou. “Se não fizermos a pesquisa e recolha de espécies silvestres, não teremos reservas de material genético em bancos para fazer cruzamentos no futuro”, finalizou.












