Emmanuel Macron anunciou aos franceses em março de 2020: “Estamos em guerra.” Talvez nem o próprio conhecia a magnitude das suas palavras – na altura o inimigo era invisível. A Covid-19 era uma doença que atravesou fronteiras sem que nada pudesse travar e, mesmo debilitada, causou milhões de mortes. Dois anos depois, Macron venceu as eleições presidenciais francesas sob a sombra da ofensiva russa na Ucrânia, um evento que apanhou o planeta de surpresa. Agora que as máscaras começam a desaparecer, o medo dos líderes ocidentais é uma III Guerra Mundial. Esta ‘bombarrelógio’ na Ucrânia fez esquecer diversas crises que ainda continuam abertas. Estes são os principais fenómenos que continuam a preocupar a sociedade civil, segundo apontou o jornal espanhol ‘El Mundo’:
Pandemia do coronavírus
A maioria dos Governos começou a levantar as medidas impostas durante a pandemia, mas isso não significou a derrota total do vírus. A China, por exemplo, voltou a colocar-se em alerta, com Shanghai a ter pela frente um duro confinamento devido ao aumento do número de casos. Taiwan registou recentemente o mais aumento de casos desde o início da pademia. Por outro lado, em África, assiste-se a um aumento.
As novas infeções destacaram a desigualdade no processo de vacinação. A iniciativa COVAX nasceu com o propósito de um distribuição equitativa das vacinas mas a Amnistia Internacional já denunciou que menos de 8% da população africana estava vacinada em finais de 2021. “Quando a taxa de vacinação superava os 70% na União Europeia, ainda muitos países do sul estavam à espera da primera dose”, frisou a ONG.
Outros êxodos
A guerra na Ucrânia trouxe consigo importantes movimentos populacionais na Europa. A Organização Internacional para as Migrações cifrou recentemente em 7,7 milhões o número de deslocados internos e a Agência das Nações Unidas para os Refugiados assinalou que atualmente há mais de 5 milhões de refugiados. Antes de os ucranianos terem começado a abandonar o seu país, os alarmes já soavam, principalmente com as crises migratórias da Venezuela (6 milhões de pessoas), da Américaa Central (com destino aos Estados Unidos) e Síria (6,8 milhões de pessoas).
Mas não só: em 2021, como alertou a Amnistia Internacional, a situação no Afeganistão, na Etiópia e na Birmânia provocou êxodos maciços. Sem esquecer o conflito na República Centro-Africana, que já provocou 1,5 milhões de refugiados em 2021.
Conflitos sem fim
A guerra na Síria completou em março 11 anos e, apesar de ser citada atualmente devido às táticas que a Rússia tem usado na Ucrânia, pouco se fala das dificuldades que atravessa a população, pelas difíceis condições de vida, sem acesso a serviços básicos, que piorou devido à falta de assistência médica durante a pandemia da Covid-19. Os centros educativos que hoje vemos a ser destruídos na Ucrânia já tinham tido a mesma sorte na Síria. “Mais de 3 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola”, alertou a UNICEF. Em 2021, o presidente Bashar Asad voltou a ganhar umas eleições que foram colocadas em dúvida por autoridades americanas e europeias.
Os problemas têm vindo a agravar-se no Afeganistão: a saída das tropas americanas, no último verão, já parece algo distante. Caiu o Governo e os taliban tomaram o controlo, provocando um retrocesso em matéria de direitos humanos. Entre eles, a proibição das mulheres na escola. “Em apenas meio ano destruíram décadas de contribuições das mulheres no país”, lamentou Uamini Mishra, diretora regional para a Ásia Meridional da Amnistia Internacional, em comunicado no Dia da Mulher.
O ano de 2021 começou ‘agitado’ na Birmânia. Um golpe de Estado acabou com a frágil democracia e os militares regressaram ao poder. A líder Aung San Suu Kyi foi presa e, atualmente, não pára de somar condenações por qualquer motivo, a última das quais foi de cinco anos de prisão por corrupção. A sublevação de 1 de fevereiro gerou protestos contra o exército que foram reprimidas – segundo um grupo local de monitorização, deixaram um saldo de 1.700 mortos e 13 mil presos.
Destino político da América Latina
Cada vez que há eleições na América Latina é possível analisar como o continente se vira para a esquerda ou para a direita. Para este ano estão agendadas dois grande atos eleitorais: na Colômbia e no Brasil. Se vencerem Gustavo Petro e Lula da Silva, a tendência será de esquerda. Já houve mudanças nesse sentido na Bolívia (Luis Arce), Peru (Pedro Castillo), Honduras e Chile.
Fraturas do Velho Continente
A guerra na Ucrânia deslocou para segundo lugar os problemas na Europa e ganhou força a União Europeia e a NATO. Três anos depois do Brexit, não só Boris Johnson parece ter-se esquivado do escândalo Partygate mas também tentou unir posições na Europa antes do conflito. As eleições francesas também foram notícias, muito por causa da posição dos candidatos em relação à guerra. Macron, que tentou mediar uma reunião de paz com Putin, não tem hesitado em mostrar que não aprecia o primeiro-ministro britânico e aproximou-se de Olaf Scholz. Será uma reedição do eixo franco-alemão?
No mesmo dia em que Macron comemorou a sua vitória, o populista de direita Janez Jansa perdeu as eleições legislativas na Eslovénia. As preocupações na Europa persistem – na Hungria, Viktor Orbán voltou a vencer, pelo que não haverá mudança de direção na política do país, como prometeu pelo bloco de oposição liderado por Peter Marki-Zay, que se destacou pelo seu sentido pró-europeu. Na Polónia, continua a assistir-se à destruição do poder judicial, como denunciou a Amnistia Internacional.
Eleições intercalares nos Estados Unidos
A sombra de Donald Trump continua pela possibilidade de voltar a candidatar-se. Até lá, vão decorrer as eleições intercalares nos Estados Unidos. A pandemia, a situação na Ucrânia e a alta inflação não têm facilitado a presidência de Biden, que tem sofrido nas sondagens. “Os democratas dirigem-se às eleições intercalares com promessas de campanha de alto nível sobre o direito ao voto, reforma da Justiça e as reformas nas infraestruturas ainda por cumprir”, referiu Carlota García Encina, investigadora do Instituto Real Elcano, que sublinhou ainda a péssima imagem deixada pela saída das tropas americanas do Afeganistão.












