Em dezembro de 2006, a revista ‘The Economist’ publicou uma capa do presidente russo Vladimir Putin vestido como um gangster dos anos 1930, num fato escuro e chapéu, com a seguinte manchete: “Não mexam com a Rússia.” Nas mãos, uma ‘pistola’ de combustível, empunhada como uma metralhadora. O alvo seria presumivelmente a Europa, que dependia fortemente da Rússia para petróleo e gás natural.
No subtítulo, lia-se: “O abuso habitual da Rússia no seu músculo energético é mau para os seus cidadãos, os seus vizinhos e o mundo.” Dezasseis anos volvidos, a afirmação ainda soa verdadeira, depois do corte russo nas entregas de gás natural para a Polónia e a Bulgária.
Michael E. Webber, professor de recursos energéticos da Universidade do Texas, em Austin, nos Estados Unidos, questionou, num artigo do ‘The Conversation’: pode o corte de abastecimento ser mais prejudicial para a Rússia do que para a Europa?
O gás é um bem precioso, fundamental para indústrias, gerar energia e aquecimento de edifícios – especialmente no norte da Europa, onde os invernos podem ser rigorosos e longos. Isso explica por que os países europeus importam gás de muitas fontes mas passaram a depender dos abastecimentos russos para manter as suas casas aquecidas e as suas economias a funcionar.
Em 1967 e 1973, as nações árabes cortaram as exportações de petróleo para os EUA e outras nações ocidentais que apoiavam Israel, devido a conflitos com os seus vizinhos do Médio Oriente – reter o fornecimento era uma maneira de infligir problemas económicos aos adversários e ganhar concessões políticas.
Hoje, um embargo de petróleo pode não funcionar tão bem. O motivo? O petróleo é uma commodity fungível num mercado global: se a fonte ‘secar’, os países importadores podem simplesmente comprar mais petróleo noutros fornecedores, embora possam pagar preços mais altos nos mercados à vista do que pagariam sob contratos de longo prazo. Isso é possível porque mais de 60% do consumo diário de petróleo do mundo é entregue por navio. A qualquer momento estão frotas imensas a transportar petróleo bruto de um ponto para outro em redor do planeta. Se houver interrupções, basta mudar a rota dos navios e chegar aos novos destinos numa questão de semanas. Assim, é difícil para um país produtor de petróleo impedir um país consumidor de encontrar novas soluções no mercado global.
Por outro lado, o gás natural é transportado principalmente por gasoduto – apenas 13% do abastecimento mundial é fornecido por navios-tanque, que transportam gás natural liquefeito (GNL), o que torna o gás uma commodity regional ou continental, com vendedores e compradores fisicamente ligados entre si. É muito mais difícil para os compradores encontrar alternativas de gás natural do que fontes alternativas de petróleo, porque a instalação de novos oleodutos ou a construção de novos terminais de importação e exportação de gás natural liquefeito pode custar milhares de milhões de euros e demorar anos. Consequentemente, as interrupções de gás são sentidas rapidamente e podem durar muito tempo
A dependência das nações europeias da energia russa, principalmente do gás natural, complicou as suas políticas externas. Como tem sido apontado por diversos especialistas, desde o início da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro último, a forte dependência dos consumidores europeus financiou e encorajou o regime de Putin, deixando a Europa hesitante perante os comportamentos do presidente russo. Não foi por acaso que a invasão tenha arrancado em fevereiro, quando estava mais frio e a procura europeia por gás para aquecimento é maior.
Como a rede de gás europeia abrange muitos países, o corte de gás da Rússia para a Polónia e a Bulgária não afeta apenas esses dois países. Os preços vão subir à medida que as pressões do gás nos oleodutos que passam por esses países para outras nações caem. A escassez acabará por se espalhar para outros países a jusante, tal como França ou Alemanha. Se os europeus puderem reduzir o seu consumo de gás rapidamente, podem ‘atrasar’ o início dos problemas. O uso mais amplo do GNL também pode ajudar.
A longo prazo, a União Europeia já trabalha para aumentar a eficiência energética nos edifícios existentes. Pretende também ter níveis constantes de armazenamento de gás em até 90% da capacidade durante as estações fora de pico, quando a procura de gás é menor, assim como aumentar a produção local de biometano, que pode substituir o gás fóssil, derivado de resíduos agrícolas ou outras fontes orgânicas e renováveis.
Construir mais terminais de importação para trazer GNL dos Estados Unidos, Canadá e outras nações amigas também é uma opção – mas a criação de uma nova infraestrutura de combustíveis fósseis entraria em conflito com os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para retardar as mudanças climáticas.
Aumentar, o mais rápido possível, as centrais eólicas, solares, geotérmicas e nucleares para substituir as centrais de gás natural no continente europeu é uma prioridade para a UE. O mesmo acontece com a substituição dos sistemas de aquecimento a gás natural por bombas de calor elétricas, que podem fornecer ar condicionado durante o calor do verão, cada vez mais intenso e frequente – estas são soluções mais alinhadas com os objetivos climáticos da UE, o que pode sugerir que os cortes de gás da Rússia podem, em última análise, acelerar os esforços das nações europeias rumo a uma energia mais verde.
Todas essas opções são eficazes mas levam tempo. E, infelizmente, a Europa não tem muitas opções antes do próximo inverno. As perspectivas são piores para os países em regiões mais pobres, que ficarão em muitas dificuldades para enfrentar os preços mais altos da energia.
Assim, quem fica mais a perder, Rússia ou Europa? O autor concluiu – ambos. Embora as interrupções no fornecimento de gás, sem dúvida, causem dano aos consumidores europeus, também são duras para a Rússia, que precisa muito do dinheiro. Atualmente, Putin ordenou que os países “hostis” paguem pela energia russa em rublos, que tem perdido valor sob o peso das sanções económicas, uma pretensão que a Europa rejeitou. Por exemplo, a Polónia e Bulgária.
Cortar o fornecimento de gás em fevereiro teria sido caro para a Rússia e certamente teria inspirado ainda mais a reação na Europa. Ao usar o gás natural como arma quando o clima está ameno, a Rússia pode contrair os seus petro-músculos sem ser muito agressiva ou perder muito dinheiro.
A questão-chave agora é se a Europa precisa de gás russo mais do que a Rússia precisa das receitas das vendas europeias.















