Pode a Rússia cortar o abastecimento de gás a toda a Europa como fez com a Polónia e Bulgária?

Kremlin garantiu que não está a fazer dos cortes uma ferramenta de chantagem

Francisco Laranjeira

A Rússia cumpriu a sua ameaça de cortar o fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária pela recusa dos dois países em fazer o pagamento por rublos. A reação russa contra os dois Estados-membros da União Europeia faz com que, agora, qualquer tipo de compromisso de Moscovo com Bruxelas seja menos provável. Elimina também das ferramentas de sanções europeias a opção de sancionar o gás russo. A Rússia escolheu disparar primeiro e avisou que poderá voltar a fazê-lo.

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A ordem do presidente Vladimir Putin para pagar o gás em rublos é a base central da resposta da Rússia às dolorosas sanções ocidentais para o sistema financeiro russo, que incluem o congelamento de centenas de milhões de euros em ativos russos. Segundo o decreto assinado pelo presidente russo, são exigidas às empresas a abertura de duas contas, uma em moeda estrangeira e outra em rublos, ao cuidado da Gazprombank – o banco ficaria responsável pela conversão dos pagamentos da moeda estrangeira para rublos antes de transferir o pagamento para a Gazprom, a companhia estatal de gás.

A Rússia negou as acusações de estar a usar os abastecimentos de gás como uma ferramenta de chantagem mas o Kremlin advertiu que os restantes países que se recusem a pagar o gás em rublos poderiam enfrentar o mesmo resultado. O ‘choque’ parece inevitável, considerando que os demais Estados-membros, com exceção da Hungria, se recusou.

Moscovo está simplesmente a cumprir a sua ameaça. “Não creio que seja direcionado especificamente para a Polónia e Bulgária, provavelmente será só porque as suas faturas venceram antes dos outros compradores”, explicou, ao jornal espanhol ‘El Mundo’, Agnia Grigas, especialista em mercados globais de energia e autora do livro “The New Geopolitics of Natural Gas”. Além de fechar a torneira do gás, Moscovo aumentou a sua escalada verbal. Viatcheslav Volodin, presidente da Duma (Câmara Baixa do Parlamento russo), propôs estender o corte a outros países “hostis”, o nome usado por Moscovo contra as nações que impõem as sanções.

A decisão da Rússia em parar fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária representa um ponto de viragem histórico. Por um lado, é a mais dura retaliação até ao momento pelas sanções internacionais impostas após a invasão da Ucrânia. Por outro lado, a decisão de Putin pode ser contraproducente porque mostrou que a dependência da Rússia tornou os países vulneráveis à coerção russa: agora, os Governos europeus têm de decidir se aceitam os termos de Putin ou perdem os abastecimentos cruciais e aproximam-se de uma perspetiva de racionamento da energia.

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O contrato de gás de longo prazo da Polónia com a Rússia expira no final deste ano e o Governo de Varsóvia já repetiu que não tinha intenções de o estender. O mesmo se passa no caso búlgaro. O Governo polaco garantiu, na passada terça-feira, que tem combustível suficiente acumulado.

Mas o problema vai mais além do que a Polónia ou Bulgária. O gasoduto Yamal-Europa, que atravessa a Bielorrússia e a Polónia, não só abastece estes países mas também serva para canalizar parte dos hidrocarbonetos russos para outros estados europeus. O Estado russo – um gigante que abastece a Europa em cerca de 40% das suas necessidades de gás) – também já alertou que o trânsito pela Polónia e pela Bulgária, cujos gasodutos abastecem também a Alemanha, Hungria e Sérvia, se for desviado ilegalmente, também seria interrompido.

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