Um estudo recente sobre os efeitos da dieta intermitente deixou as pessoas ‘desanimadas’ – afinal, trata-se da dieta preferida de famosos, influencers e muitas pessoas que ‘lutam contra a balança’. Investigadores da Southern Medical University na China publicaram um estudo que indicou que esta modalidade de perda de peso é, na realidade, uma moda sem sentido, levando a manchetes como “Não é um truque mágico de dieta, afinal”.
Os investigadores do estudo sobre perda de peso tiveram como objetivo testar se a adição de uma restrição sobre a hora do dia em que pode comer (ou não) à dieta habitual de baixas calorias (ou quilojoule) levava a uma maior perda de peso em comparação com apenas seguir uma dieta de baixas calorias. Para isso, foram recrutados 139 adultos, com peso médio de 88 quilogramas e 32 anos de idade média. Os pacientes foram então divididos: uns para seguir uma dieta de baixas calorias – que reduziu a sua ingestão diária habitual em 25% – outros para a mesma dieta de baixas calorias com a adição de um período de tempo no qual foram autorizados a comer numa janela temporal de 8 horas – entre as 8 e as 16 horas, todos os dias.
Esta abordagem é conhecida como “alimentação com restrição de tempo” ou “jejum intermitente de 16 horas”. Ambos os grupos receberam apoio de instrutores para seguirem as suas dietas durante um ano. Os resultados mostraram que as pessoas em ambos os grupos perderam entre 7 e 10% do seu peso corporal inicial – enquanto o grupo de baixas calorias perdeu uma média de 6,3 quilos, o grupo de baixas calorias mais a restrição de tempo perdeu 8 quilos. Embora haja uma diferença de 1,7 kg entre os grupos, os cientistas consideraram não ter sido uma diferença estatisticamente significativa. Em ambos os grupos, foram registados melhores níveis de açúcar e gordura no sangue.
Mas Clare Collins, professora de Nutrição e Dietética da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, desmistificou os resultados do estudo realizado em Guangzhou, desde logo pelas diferenças culturais. Segundo a especialista, o facto de o estudo ter sido realizado na China acabou por fornecer dados importantes ao usar uma restrição calórica prescrita e culturalmente sensível ao longo de 12 meses.
Depois, os participantes em Guangzhou tinham uma janela habitual para comer diária de cerca de 10 horas e meia. No entanto, em outras culturas, particularmente nos Estados Unidos, 90% dos adultos têm uma janela alimentar de 12 horas, com apenas 10% dos adultos a dispor de um período de jejum noturno superior a 12 horas. Para mais de 50% das pessoas em países como os EUA, o jejum noturno é inferior a nove horas, o que significa que comem durante um período de 15 horas por dia. Assim, no controverso estudo, a restrição de tempo foi menor – cerca de duas horas a menos por dia do que o normal, o que não teria sido uma grande diferença do habitual.
Os investigadores também relataram que, na China, a maior refeição geralmente é feita a meio do dia, de modo que não foi influenciada pela restrição de tempo. Em países onde a refeição da noite é a maior, a restrição de tempo ainda pode ser uma maneira benéfica de reduzir a ingestão. Uma revisão de 2020 de 19 estudos que usaram o jejum intermitente com restrição de tempo descobriu que era um tratamento eficaz para adultos com obesidade, levando a maior perda de peso e gordura corporal, com pressão arterial sistólica e glicose no sangue significativamente mais baixas.
Ambos os grupos do estudo receberam bastante apoio para aderir à dieta restrita em quilojoule, tais como um shake substituto de refeição por dia durante os primeiros seis meses, para facilitar o cumprimento da restrição e ajudar a melhorar a adesão à dieta. Receberam também aconselhamento dietético de profissionais de saúde ao longo dos 12 meses, assim como folhetos de informações dietéticas que incluíam conselhos sobre o tamanho das porções e menus de amostra. Foram encorajados a pesar os alimentos para melhorar a sua precisão em relatar a ingestão de quilojoules e obrigados a manter um registo diário com fotografias dos alimentos consumidos e o horário, usando uma aplicação associada ao estudo.
Ou seja, tiveram muito apoio e isso é muito importante. Receber apoio de longo prazo para alcançar mudanças no comportamento de saúde normalmente atinge uma perda de peso de 3-5%, o que reduz significativamente o risco de problemas de saúde relacionados ao peso, incluindo um risco 50% menor de desenvolver diabetes tipo 2 em oito anos.
As respostas individuais à perda de peso foram muito variáveis, embora a adesão tenha sido alta neste estudo. Cerca de 84% dos participantes aderiram às metas diárias de calorias prescritas e ao período de alimentação com restrição de tempo. A perda de peso aos 12 meses variou de 7,8 a 4,7 kg no grupo apenas de baixa caloria e de 9,6 a 6,4 kg no grupo de baixa caloria mais restrição de tempo.
Como vimos muitas vezes anteriormente, este estudo confirmou que não existe uma dieta melhor para perda de peso. Também mostrou que pequenas diminuições na janela de tempo em que se come provavelmente não fazem diferença na perda de peso.












