Os gafanhotos são capazes de diferenciar células humanas saudáveis de células cancerígenas através do olfato, garantem cientistas, o que pode abrir oportunidades para detetar a doença mais cedo, melhorando dessa forma a possibilidade de recuperação. Mas há melhor: os insetos em questão podem realmente escolher linhas de células cancerígenas individuais, sugerindo que o tipo de cancro, assim como a presença do mesmo, podem ser detetados.
O estudo, publicado no site de pré-impressão ‘BioRxiv’ antes da revisão por pares, garantiu que as suas descobertas são promissoras para a deteção precoce do cancro – a capacidade dos gafanhotos, que foi medida pelas mudanças na sua atividade cerebral captada por elétrodos, mostrou-se confiável, sensível e rápida – aconteceu em apenas alguns milissegundos.
“A deteção precoce [do cancro] é muito importante e devemos usar todas as ferramentas possíveis para chegar lá, sejam elas projetadas ou fornecidas a nós por milhões de anos de seleção natural”, argumentou o microbiologista Christopher Contag, da Michigan State University, nos Estados Unidos. “Se formos bem-sucedidos, o cancro será uma doença tratável.”
Os gafanhotos mostraram-se sensíveis aos compostos orgânicos voláteis (COVs) que expiramos, que os cientistas sabem que são de alguma forma alterados pela presença de cancro a interferir nos processos metabólicos de células individuais. Para os cientistas, o ‘truque’ é apanhar a mudança cedo.
Através de elétrodos ligados ao cérebro dos gafanhotos, a equipa foi capaz de medir a resposta dos insetos a amostras de gás de diferentes células e estabelecer perfis de sinal que representavam os produtos químicos que estavam a cheirar, com uma resposta dos insetos distinta.
Tendo estabelecido anteriormente que as células dos cancros de boca pareciam diferentes das células normais sob um microscópio, e atribuindo isso a mudanças nos metabólitos, os cientistas foram capazes de confirmar que as células realmente cheiravam diferente para os gafanhotos.
“Esperávamos que as células cancerígenas parecessem diferentes das células normais. Mas quando os insetos puderam distinguir três tipos de cancro diferentes, foi incrível”, regozijou-se Contag.
Em diferentes tipos de cancro, a taxa de sobrevivência é de entre 10 e 20% quando o cancro foi detetado no estágio 4 (quando se espalhou para outras partes do corpo). Comparado com os cancros detetados no estágio 1, nos quais os pacientes têm entre 80 e 90% de hipótese de sobrevivência, percebe-se o potencial do estudo.
O trabalho já está em andamento para desenvolver dispositivos de ‘nariz biónico’ que possam detetar mudanças nos VOCs mas os cientistas ainda estão longe de criar sensores que correspondam aos que a natureza criou.
“Teoricamente, seria possível respirar através de um dispositivo e detetar e diferenciar vários tipos de cancro, até mesmo em que estágio da doença está”, garantiu o engenheiro biomédico Debajit Saha, da Michigan State University. “No entanto, tal dispositivo ainda não está perto de ser usado num ambiente clínico.”












