Por Diogo Simões Pereira, Diretor-geral da Associação EPIS – Empresários Pela Inclusão Social
Portugal está em mínimos históricos em termos de insucesso escolar no ensino básico e secundário.
Com efeito, o INE anunciou recentemente que Portugal registou, em 2021, a mais baixa taxa de saída escolar precoce de sempre, com um valor de 5,9%. Significa que, entre os jovens com 18 a 24 anos, apenas 5,9% não completou o ensino secundário. Por outro lado, o relatório “Estado da Educação 2020”, publicado pelo Conselho Nacional de Educação neste mês de fevereiro, divulgou as mais baixas taxas de insucesso escolar anual de sempre no 1.º, 2.º e 3.º Ciclos e Secundário em 2020. Neste ano letivo, terão “chumbado” «apenas» um pouco mais de 50 mil jovens em frequência da escolaridade obrigatória – 1.º ao 12.º ano de escolaridade.
Mas a significativa redução do insucesso escolar ao longo dos últimos 15 anos não se terá processado de forma homogénea em termos sociais e regionais. O insucesso persiste, resiliente, no seio das comunidades e classes mais carenciadas. São elas as comunidades de imigrantes, sobretudo de 1.ª geração – muito concentradas nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto e no Algarve -, as comunidades rurais e do interior em processo de erosão demográfica, muitas comunidades piscatórias do litoral do continente e das ilhas e, por último, as comunidades de etnia cigana que, apesar de uma escala nacional diminuta, se concentram em alguns concelhos da Beira Interior e do Alentejo. Em termos de idades, temos um crónico problema de insucesso escolar no 2.º ano, aos 8 anos – por deficiente aprendizagem inicial da leitura e escrita no 1.º ano, muitas vezes ligada a um pré-escolar incompleto e/ou de baixa qualidade em termos de desenvolvimento -, que é um flagelo social e é inexplicável para as suas famílias. Destaco ainda os jovens especiais, cuja fragilidade não preciso de explicar.
É prioritário, de todas as formas, apoiar estes alunos mais carenciados e promover o seu sucesso escolar e o desenvolvimento de carreiras académica promissoras.
Mas não chega. As escolas, e também as comunidades educativas locais e a sociedade em geral, têm o dever de capacitar estas crianças, jovens e suas famílias para a prossecução do seu máximo potencial individual, que lhes permita a realização pessoal e profissional com pleno sentido e com a aquisição dos conhecimentos, atitudes e competências necessárias para uma cidadania global no século XXI, no quadro dos valores humanos universais e do desenvolvimento sustentável.
Para poderem atingir o seu máximo potencial, estas crianças e jovens precisam de sonhar com horizontes que vão muito para além da sua terra, região, ou mesmo país, muito para além do que os seus pais atingiram. Para isso, têm de ser ajudados a descobrir o «mapa mundo» e têm de ser treinados a viajar, a voar – seja com o corpo, seja com a alma.
Muito já é feito pelas escolas, autarquias e sociedade civil: aprendizagem ativa, colaborativa e em redes nacionais e internacionais, promoção da leitura e das expressões artísticas, visitas de estudo de âmbito cultural, intercâmbios, geminação intra e além-fronteiras de escolas e autarquias, concursos com interesse pedagógico, bolsas de estudo… Mas é preciso garantir que esse esforço seja focalizado nos que mais precisam, nos que não têm uma família com “capital” que os ajude a descolar.
A este propósito, o “Inquérito às práticas culturais dos portugueses”, divulgado recentemente pela Fundação Gulbenkian, com 2000 inquiridos de 15 ou mais anos, dá-nos exemplos vários do caminho que temos ainda a percorrer enquanto sociedade: por exemplo, “a percentagem de inquiridos portugueses que, no último ano, não leram qualquer livro impresso (61%) é francamente superior à registada na vizinha Espanha, um ano atrás (38%)”; num outro exemplo, “nos 12 meses anteriores ao início da pandemia,” «apenas» “31% dos inquiridos visitaram monumentos históricos, 28% frequentaram museus, 13% deslocaram-se a sítios arqueológicos e 11% frequentaram galerias de arte”; e ainda, “nos 12 meses anteriores ao início da pandemia, 59% nunca foi ao cinema nesse período”.
Neste início de Primavera, o fim da pandemia é o momento certo para nos mobilizarmos ainda mais para dar novos horizontes de realização às crianças e jovens mais carenciados de Portugal.




