Zonas inundadas exigem “grande cuidado”: Ex-presidente do LNEC alerta para risco em infraestruturas após tempestades

As recentes tempestades deixaram um rasto de destruição em várias estradas e linhas férreas em Portugal, mas o perigo poderá estar longe de ter terminado.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 16, 2026
10:48

As recentes tempestades deixaram um rasto de destruição em várias estradas e linhas férreas em Portugal, mas o perigo poderá estar longe de ter terminado. O antigo presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Carlos Matias Ramos, alerta que os riscos associados à saturação dos solos persistem mesmo após o fim da chuva intensa, colocando em causa a estabilidade de infraestruturas localizadas em zonas inundadas ou com terrenos altamente encharcados.

Em entrevista à CNN Portugal, Carlos Matias Ramos sublinhou que “é evidente” que o risco não desaparece com a melhoria das condições meteorológicas. Explicou que um solo “para autoadrenar leva um bocado de tempo”, uma vez que a velocidade de escoamento da água no seu interior é muito baixa. Assim, a estabilização, “do ponto de vista de condições que não induzam o risco de deslizamento, ainda vai demorar uns tempos”. O especialista acrescenta que tudo depende do tipo de solo e do enquadramento em termos de vegetação e outros fatores que condicionam o comportamento do terreno.



Questionado sobre a possibilidade de a população identificar sinais de perigo, o antigo responsável do LNEC admite que essa tarefa é “extremamente difícil”. Ainda assim, refere que, no caso das estradas, um dos indicadores mais evidentes é o aparecimento de fissuras no pavimento. “As pessoas têm que ter atenção a essa situação e não correrem riscos”, avisou. Sublinha que qualquer infraestrutura situada numa zona que tenha sido inundada ou que permaneça sobre solos altamente saturados exige “um grande cuidado na circulação”, já que existe o risco de surgir “uma situação altamente desfavorável e que não é compaginável com a sua segurança”.

Quanto à capacidade de realizar, no curto prazo, um levantamento exaustivo do estado das infraestruturas rodoviárias e ferroviárias a nível nacional, Carlos Matias Ramos considera que o desafio é igualmente “extremamente difícil”. Apesar de Portugal não ser um país de grande dimensão, tem uma extensa rede de infraestruturas expostas aos efeitos de inundações. O especialista explica que a saturação dos solos pode gerar “tensões neutras” que favorecem deslizamentos, referindo os chamados “círculos de Moore”, identificáveis por um engenheiro geotécnico experiente. Ainda assim, alerta que a extensão dos terrenos adjacentes às estradas é muito vasta, podendo existir locais perigosos que escapem a uma análise inicial.

O antigo presidente do LNEC lembra ainda que, na construção de infraestruturas, deve ser previamente avaliado o potencial risco dos solos. Evoca o caso de uma escola construída recentemente, cuja avaliação posterior levou à necessidade de erguer uma cortina de contenção — composta por muros de Berlim — que “é capaz de ter custado mais que a própria escola”. Para Carlos Matias Ramos, a falta de avaliação antecipada das condições de estabilidade, sobretudo em zonas com solos particularmente instáveis, pode potenciar os riscos que agora se tornam visíveis após fenómenos meteorológicos extremos.

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