Zelensky recua e nomeia chefe anticorrupção após sujeitá-lo a teste de polígrafo

A nomeação de Oleksandr Tsivinski como chefe da Oficina de Segurança Económica da Ucrânia marca um ponto de viragem na crescente tensão entre o governo de Volodymyr Zelensky e a sociedade civil, após semanas de protestos contra o alegado controlo político sobre as agências anticorrupção.

Pedro Gonçalves

A nomeação de Oleksandr Tsivinski como chefe da Oficina de Segurança Económica da Ucrânia marca um ponto de viragem na crescente tensão entre o governo de Volodymyr Zelensky e a sociedade civil, após semanas de protestos contra o alegado controlo político sobre as agências anticorrupção. A confirmação oficial chegou esta quarta-feira, depois de o nomeado ter sido sujeito a novos exames de segurança e a um teste de polígrafo, que visaram dissipar suspeitas ligadas à sua ascendência russa.

Tsivinski, investigador independente com um historial sólido no combate à corrupção, foi inicialmente recomendado para o cargo no final de junho, após um rigoroso processo de seleção. A “oposição” incluiu provas de inteligência, testes jurídicos, resolução de casos simulados e várias entrevistas. A sua prestação foi tão convincente que a comissão responsável pelo processo recomendou a sua nomeação.

Contudo, em 7 de julho, o Conselho de Ministros rejeitou a sua entrada em funções após receber um relatório dos serviços secretos ucranianos que levantava preocupações sobre a nacionalidade russa do pai do candidato. Apesar de Tsivinski não manter qualquer contacto com o progenitor há mais de dez anos – devido a divergências causadas pela invasão da Ucrânia pela Rússia – o governo considerou-o um “risco para a segurança”.

A decisão coincidiu com outra medida controversa: a tentativa do governo ucraniano de esvaziar a independência das duas principais agências anticorrupção do país, a NABU (Agência Nacional Anticorrupção) e a SAPO (Gabinete Especializado Anticorrupção), o que gerou forte oposição da sociedade civil e de parceiros internacionais.

Segundo o Kyiv Independent, a viragem do governo deveu-se não apenas à contestação interna, mas também à crescente pressão internacional, particularmente por parte da União Europeia. “Inicialmente, os parceiros ocidentais não reagiram com firmeza, mas depois de Kiev tentar limitar a independência das agências anticorrupção, os apelos à nomeação de Tsivinski intensificaram-se”, explicou Dominic Culverwell, correspondente financeiro do jornal.

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Olena Trehub, diretora da Comissão Independente Anticorrupção, afirmou que já existiam dúvidas quanto às verdadeiras motivações do governo. “Depois do ataque às agências anticorrupção, ficou evidente que o governo não queria Tsivinski devido à sua independência”, comentou. “Ou, como se diz nas ruas de Kiev, porque é incontrolável”.

A analista e ativista Olena Halushka celebrou a nomeação como “mais uma grande vitória dos protestos de papelão”, numa referência aos protestos pacíficos que mobilizaram a opinião pública contra a politização da luta anticorrupção.

A primeira-ministra Yulia Svyrydenko deu as boas-vindas públicas a Tsivinski, afirmando esperar que a sua liderança contribua para renovar a missão da Oficina de Segurança Económica e fortalecer as instituições. “É importante que as relações económicas na Ucrânia não sejam distorcidas por tramas obscuras e que as empresas possam contar com o respeito e a cooperação do Estado”, declarou.

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Antes da confirmação formal, Tsivinski teve de submeter-se a um novo conjunto de verificações de segurança e à realização de um polígrafo. Só após esses testes é que o governo deu luz verde à sua nomeação.

Criada em 2021, durante o mandato de Zelenski, a Oficina de Segurança Económica tinha como missão investigar crimes financeiros e prevenir a corrupção no setor empresarial. No entanto, desde a sua fundação tem sido alvo de críticas por ineficiência e por alegada interferência política.

Face às exigências da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, as autoridades ucranianas comprometeram-se, na primavera de 2023, a reformar o organismo e nomear um novo responsável através de um processo transparente. A nomeação de Tsivinski representa, segundo várias vozes, o cumprimento dessa promessa.

De acordo com o deputado da oposição Yaroslav Zhelezniak, o primeiro passo agora deverá ser a formação de uma comissão para selecionar cuidadosamente os novos quadros do organismo. Tsivinski, por sua vez, declarou que a sua prioridade será garantir a “igualdade de condições entre as empresas”, assegurando que ninguém beneficie de ligações políticas para obter vantagens nos negócios.

Apesar do recuo, o episódio afetou a imagem do presidente Zelensky. De acordo com uma sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, realizada no início de agosto, a sua popularidade caiu para 58%, face aos 65% registados em junho.

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Especialistas atribuem esta queda às decisões recentes do governo em matéria de anticorrupção. “Nem ele nem a sua equipa parecem compreender a correlação entre ampliação de poderes e responsabilidade acrescida”, afirmou o analista político Yevhen Mahda ao Kyiv Independent. “Zelensky não deverá ter uma campanha fácil nas próximas eleições. E é possível que o seu partido, Servidor do Povo, nem sequer sobreviva até lá”, acrescentou.

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