Zelensky chega hoje à Turquia para relançar negociações de paz com a Rússia. Enviado de Trump vai estar presente

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chega esta quarta-feira à Turquia para uma nova ronda diplomática destinada a reanimar esforços de paz e avançar com um plano para retomar trocas de prisioneiros com a Rússia.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chega esta quarta-feira à Turquia para uma nova ronda diplomática destinada a reanimar esforços de paz e avançar com um plano para retomar trocas de prisioneiros com a Rússia, num momento em que Moscovo já avisou que não participará nos encontros previstos em Istambul.

A deslocação foi confirmada pelo próprio chefe de Estado ucraniano, que anunciou na terça-feira, através das redes sociais, que o objetivo é “reavivar as negociações e elaborar soluções” que serão apresentadas aos parceiros do país. Zelensky destacou que “fazer tudo o que é possível para alcançar o fim da guerra é a principal prioridade da Ucrânia”, sublinhando que Kiev está igualmente a trabalhar para “retomar as trocas de prisioneiros de guerra e trazer os nossos prisioneiros de volta para casa”.

A imprensa turca e internacional adianta que Steve Witkoff, enviado especial do Presidente dos EUA, Donald Trump, deverá marcar presença nas conversações. Uma fonte turca citada pelo Kyiv Post e pela Sky News confirmou que Witkoff “participaria nas negociações”.

A iniciativa ocorre no seguimento de contactos diplomáticos já mantidos ao longo da semana. Na terça-feira, Zelensky esteve em Madrid para uma reunião com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmando esperar novos acordos que reforcem a capacidade defensiva da Ucrânia. “Esperamos que outro país forte aumente o seu apoio, ajudando-nos a salvar vidas e a caminhar para o fim da guerra”, afirmou, acrescentando que “a Ucrânia alcança resultados diariamente nas suas relações com os seus parceiros”.

A passagem por Madrid surge depois de uma visita, na segunda-feira, a Paris, onde Zelensky assinou com a França um acordo de cooperação militar que prevê a entrega de cem caças Rafale e sistemas de defesa aérea franceses ao longo da próxima década.

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Segundo o Kyiv Post, Zelensky assegurou que as reuniões de hoje na Turquia servirão para apresentar um conjunto de propostas desenvolvidas pela diplomacia ucraniana. O Presidente insistiu que “cada dia nas relações com os parceiros deve ter um resultado para a Ucrânia”.

Rússia recusa comparecer, apesar de dizer estar aberta ao diálogo
Apesar de o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, ter dito recentemente que Vladimir Putin estaria disponível para eventuais conversações com os EUA e a Turquia, Moscovo descartou participar nos encontros desta quarta-feira. A posição foi avançada pela Sky News e surge num contexto em que os contactos diretos entre Kiev e Moscovo permanecem suspensos desde a terceira ronda de negociações realizada em julho, também em Istambul.

As três rondas anteriores — em maio, junho e julho — terminaram sem avanços substanciais. A delegação ucraniana reiterou então a disponibilidade para um cessar-fogo imediato e apresentou as suas condições essenciais: suspensão total das hostilidades, implementação de um “regime de silêncio” ao longo de toda a linha da frente e cessação de ataques contra infraestruturas civis. Moscovo recusou um cessar-fogo e respondeu, após a segunda ronda, com um “memorando” contendo vários ultimatos, incluindo a retirada das forças ucranianas de quatro regiões, o fim da ajuda militar ocidental, a suspensão da mobilização, a realização de eleições e a interrupção do que descreveu como “atividade subversiva” contra a Rússia.

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A única consequência prática desses encontros foi o acordo para uma troca de prisioneiros.

Witkoff, o enviado polémico de Trump, volta ao centro da mediação
A presença de Steve Witkoff nas conversações renova o papel de um mediador que tem gerado fortes divisões. Em outubro, Donald Trump afirmou que Witkoff “não tinha ideia sobre a Rússia” ou sobre Vladimir Putin quando começou a negociar com o Kremlin, acrescentando que o enviado “não estava muito interessado” na matéria. No entanto, o Presidente norte-americano elogiou a sua eficácia invulgar, dizendo que muitos enviados “não seriam aceites” pelo Kremlin ou teriam reuniões que “durariam cinco minutos”. “Toda a gente gosta dele”, afirmou Trump. “Gostam dele deste lado, gostam dele do outro lado.”

O estilo altamente independente de Witkoff tem atraído críticas severas. Em agosto, uma investigação da Politico, citando 13 fontes, relatou preocupações de responsáveis dos EUA, da Ucrânia e da Europa, apontando o seu “estilo solitário” e o facto de, por vezes, recorrer a tradutores fornecidos pelo próprio Kremlin. “Ele é uma espécie de ator independente”, disse um responsável norte-americano, citado na reportagem. “Fala com toda a gente, mas ninguém sabe o que ele diz.”

Ainda assim, alguns membros da administração Trump consideram-no crucial. O vice-presidente norte-americano, JD Vance, afirmou que Witkoff “fez mais progressos para acabar com o derramamento de sangue na Ucrânia do que todos os seus críticos juntos”.

Trocas de prisioneiros continuam a ser prioridade de Kiev
A Ucrânia voltou recentemente a realizar consultas, com mediação da Turquia e dos Emirados Árabes Unidos, para tentar reativar um novo acordo de troca de prisioneiros com a Rússia — um processo a que ambas as partes tinham dado luz verde em julho. Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, afirmou no sábado que estas conversações procuram reanimar os denominados “acordos de Istambul”, que incluem um plano para libertar cerca de 1.200 ucranianos detidos pela Rússia.

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Zelensky reafirmou em outubro que Kiev está pronta para negociar com Moscovo, mas apenas “com base na atual linha da frente”. Já o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Serhiy Kyslytsia, declarou ao The Times na semana passada que o processo mais amplo de negociações está estagnado, sublinhando que os encontros de verão em Istambul não produziram progressos. Kyslytsia argumentou que é impossível uma discussão significativa com uma delegação “que representa um ditador”, acrescentando que a equipa russa atua sob um mandato inflexível que deve defender “estritamente” a posição que recebe.

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