Zelensky chega hoje à Turquia para relançar negociações de paz com a Rússia. Enviado de Trump vai estar presente

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chega esta quarta-feira à Turquia para uma nova ronda diplomática destinada a reanimar esforços de paz e avançar com um plano para retomar trocas de prisioneiros com a Rússia.

Pedro Gonçalves
Novembro 19, 2025
7:15

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chega esta quarta-feira à Turquia para uma nova ronda diplomática destinada a reanimar esforços de paz e avançar com um plano para retomar trocas de prisioneiros com a Rússia, num momento em que Moscovo já avisou que não participará nos encontros previstos em Istambul.

A deslocação foi confirmada pelo próprio chefe de Estado ucraniano, que anunciou na terça-feira, através das redes sociais, que o objetivo é “reavivar as negociações e elaborar soluções” que serão apresentadas aos parceiros do país. Zelensky destacou que “fazer tudo o que é possível para alcançar o fim da guerra é a principal prioridade da Ucrânia”, sublinhando que Kiev está igualmente a trabalhar para “retomar as trocas de prisioneiros de guerra e trazer os nossos prisioneiros de volta para casa”.

A imprensa turca e internacional adianta que Steve Witkoff, enviado especial do Presidente dos EUA, Donald Trump, deverá marcar presença nas conversações. Uma fonte turca citada pelo Kyiv Post e pela Sky News confirmou que Witkoff “participaria nas negociações”.

A iniciativa ocorre no seguimento de contactos diplomáticos já mantidos ao longo da semana. Na terça-feira, Zelensky esteve em Madrid para uma reunião com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmando esperar novos acordos que reforcem a capacidade defensiva da Ucrânia. “Esperamos que outro país forte aumente o seu apoio, ajudando-nos a salvar vidas e a caminhar para o fim da guerra”, afirmou, acrescentando que “a Ucrânia alcança resultados diariamente nas suas relações com os seus parceiros”.

A passagem por Madrid surge depois de uma visita, na segunda-feira, a Paris, onde Zelensky assinou com a França um acordo de cooperação militar que prevê a entrega de cem caças Rafale e sistemas de defesa aérea franceses ao longo da próxima década.

Segundo o Kyiv Post, Zelensky assegurou que as reuniões de hoje na Turquia servirão para apresentar um conjunto de propostas desenvolvidas pela diplomacia ucraniana. O Presidente insistiu que “cada dia nas relações com os parceiros deve ter um resultado para a Ucrânia”.

Rússia recusa comparecer, apesar de dizer estar aberta ao diálogo
Apesar de o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, ter dito recentemente que Vladimir Putin estaria disponível para eventuais conversações com os EUA e a Turquia, Moscovo descartou participar nos encontros desta quarta-feira. A posição foi avançada pela Sky News e surge num contexto em que os contactos diretos entre Kiev e Moscovo permanecem suspensos desde a terceira ronda de negociações realizada em julho, também em Istambul.

As três rondas anteriores — em maio, junho e julho — terminaram sem avanços substanciais. A delegação ucraniana reiterou então a disponibilidade para um cessar-fogo imediato e apresentou as suas condições essenciais: suspensão total das hostilidades, implementação de um “regime de silêncio” ao longo de toda a linha da frente e cessação de ataques contra infraestruturas civis. Moscovo recusou um cessar-fogo e respondeu, após a segunda ronda, com um “memorando” contendo vários ultimatos, incluindo a retirada das forças ucranianas de quatro regiões, o fim da ajuda militar ocidental, a suspensão da mobilização, a realização de eleições e a interrupção do que descreveu como “atividade subversiva” contra a Rússia.

A única consequência prática desses encontros foi o acordo para uma troca de prisioneiros.

Witkoff, o enviado polémico de Trump, volta ao centro da mediação
A presença de Steve Witkoff nas conversações renova o papel de um mediador que tem gerado fortes divisões. Em outubro, Donald Trump afirmou que Witkoff “não tinha ideia sobre a Rússia” ou sobre Vladimir Putin quando começou a negociar com o Kremlin, acrescentando que o enviado “não estava muito interessado” na matéria. No entanto, o Presidente norte-americano elogiou a sua eficácia invulgar, dizendo que muitos enviados “não seriam aceites” pelo Kremlin ou teriam reuniões que “durariam cinco minutos”. “Toda a gente gosta dele”, afirmou Trump. “Gostam dele deste lado, gostam dele do outro lado.”

O estilo altamente independente de Witkoff tem atraído críticas severas. Em agosto, uma investigação da Politico, citando 13 fontes, relatou preocupações de responsáveis dos EUA, da Ucrânia e da Europa, apontando o seu “estilo solitário” e o facto de, por vezes, recorrer a tradutores fornecidos pelo próprio Kremlin. “Ele é uma espécie de ator independente”, disse um responsável norte-americano, citado na reportagem. “Fala com toda a gente, mas ninguém sabe o que ele diz.”

Ainda assim, alguns membros da administração Trump consideram-no crucial. O vice-presidente norte-americano, JD Vance, afirmou que Witkoff “fez mais progressos para acabar com o derramamento de sangue na Ucrânia do que todos os seus críticos juntos”.

Trocas de prisioneiros continuam a ser prioridade de Kiev
A Ucrânia voltou recentemente a realizar consultas, com mediação da Turquia e dos Emirados Árabes Unidos, para tentar reativar um novo acordo de troca de prisioneiros com a Rússia — um processo a que ambas as partes tinham dado luz verde em julho. Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, afirmou no sábado que estas conversações procuram reanimar os denominados “acordos de Istambul”, que incluem um plano para libertar cerca de 1.200 ucranianos detidos pela Rússia.

Zelensky reafirmou em outubro que Kiev está pronta para negociar com Moscovo, mas apenas “com base na atual linha da frente”. Já o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Serhiy Kyslytsia, declarou ao The Times na semana passada que o processo mais amplo de negociações está estagnado, sublinhando que os encontros de verão em Istambul não produziram progressos. Kyslytsia argumentou que é impossível uma discussão significativa com uma delegação “que representa um ditador”, acrescentando que a equipa russa atua sob um mandato inflexível que deve defender “estritamente” a posição que recebe.

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