Valery Zaluzhny, antigo comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia e atualmente embaixador em Londres, voltou ao centro do debate político ucraniano num momento de crescente fragilidade do presidente Volodymyr Zelensky. Longe da linha da frente desde a sua demissão em fevereiro de 2024, o general reformado é hoje apontado por muitos ucranianos como a alternativa mais credível à liderança do país, segundo relata o ‘Washington Post’.
Afastado de Kiev e colocado num cargo diplomático amplamente interpretado como um “exílio elegante”, Zaluzhny manteve-se à margem das tensões políticas internas enquanto Zelensky enfrenta um escândalo de corrupção e uma pressão acrescida do presidente americano Donald Trump para aceitar um plano que poderá implicar concessões territoriais à Rússia. Ainda assim, sinais de uma eventual abertura a eleições reacenderam especulações sobre o futuro político do general.
De acordo com o ‘Washington Post’, Zelensky admitiu a possibilidade de eleições presidenciais caso os EUA e os aliados ofereçam garantias de segurança e o Parlamento aprove legislação que permita votar em regime de lei marcial. Especialistas em democracia alertam, contudo, que uma eleição livre e justa é praticamente impossível em contexto de guerra, com milhões de deslocados e vastas zonas sob ameaça militar.
Popularidade intacta apesar da demissão
Zaluzhny, de 52 anos, tornou-se uma figura central do imaginário coletivo ucraniano após ter liderado a defesa de Kiev em 2022 e os contra-ataques que reconquistaram território em Kharkiv e Kherson. Apesar de estar também associado à contra-ofensiva falhada de 2023, que resultou em pesadas baixas sem ganhos estratégicos relevantes, a sua popularidade manteve-se elevada.
Sondagens citadas pelo ‘Washington Post’ indicam que o antigo general ultrapassa mesmo Zelensky nas intenções de voto. Num inquérito divulgado em dezembro, 23% dos inquiridos preferiam Zaluzhny como presidente, contra 20% que apoiavam o atual chefe de Estado. Outras figuras políticas surgem muito atrás, reforçando a perceção de que o ex-comandante seria um adversário eleitoral de peso.
A sua demissão ocorreu num contexto de divergências profundas com Zelensky, nomeadamente sobre os níveis de mobilização militar. Zaluzhny defendia a necessidade de até meio milhão de novos soldados, uma proposta considerada irrealista pela presidência devido às limitações financeiras e logísticas do país.
Um general em fato, mas ainda em modo de guerra
Desde julho de 2024, Zaluzhny exerce funções como embaixador no Reino Unido. Em Londres, construiu gradualmente uma identidade civil, embora mantenha hábitos de comandante, acompanhando transmissões em direto do campo de batalha a partir do seu gabinete na embaixada. Evita entrevistas, escreve artigos e discursa sobre defesa e guerra moderna, sem nunca criticar publicamente Zelensky.
A sua atividade diplomática tem sido intensa, com contactos regulares com responsáveis britânicos, discursos em universidades e participação em eventos políticos de diferentes partidos, refletindo o apoio transversal do Reino Unido à Ucrânia. Observadores sublinham que esta exposição internacional contribuiu para reforçar a sua imagem como estadista, para além do perfil militar que o tornou conhecido.
Apesar das especulações, Zaluzhny tem negado qualquer intenção imediata de se candidatar. Numa publicação nas redes sociais, afirmou não reconhecer a legitimidade de eleições durante a guerra e garantiu não estar a formar qualquer estrutura política, reiterando que continuará a servir o Estado enquanto lhe for possível.
Herói nacional num país em suspenso
Para muitos ucranianos, a atração por Zaluzhny está ligada ao medo de uma nova ofensiva russa, mesmo que o conflito seja interrompido. Analistas sublinham que, num cenário de incerteza prolongada, o eleitorado tende a procurar líderes com experiência militar direta e capacidade comprovada de preparação para a guerra.
A transferência de Zaluzhny para Londres foi vista como um momento difícil, tanto para o próprio como para a sociedade ucraniana, mas o antigo general manteve uma postura de lealdade institucional. A sua recusa em alimentar divisões públicas é interpretada como um esforço consciente para preservar a imagem de unidade nacional num dos períodos mais críticos da história recente da Ucrânia.










