XXVI Barómetro Executive Digest: Jorge Rebelo de Almeida, Grupo Vila Galé

A análise de Jorge Rebelo de Almeida, Presidente do Grupo Vila Galé

Este ano o turismo superou as expectativas face ao ano de 2019, com uma retoma fulgurante. O que se perdeu durante a pandemia não se recupera, mas estamos em boa velocidade e o turismo volta a ser um dos motores do crescimento económico no país. A melhoria ficou a dever-se em grande parte à melhoria da procura do mercado interno. O internacional esteve estável com excepção da Alemanha que tem caído um pouco. Entretidos que estávamos a começar a saborear a retoma, quando começam a surgir todos os sinais de uma nova crise grave: aumento de custos e falta de produtos no mercado; inflação a disparar; subida das taxas de juros por aumento da Euribor; imprevisibilidade face à evolução da guerra; seca tremenda e severa; licenciamentos a complicarem-se e a demorarem tempos sem fim; pouca iniciativa na atracção de investimento estrangeiro da maior importância para o crescimento económico.

Ausência total de sinais de que se venham a concretizar algumas das reformas estruturais relevantes: reorganização administrativa do país; retoma da administração pública com melhoria das condições de remuneração, carreiras e dignificação, mas tendo como contrapartida o mérito a avaliar e escrutinar; reforma da Justiça; reforma do SNS, pelo menos está no terreno um conjunto de medidas que poderão funcionar. A questão da baixa do IRC como factor de atracção de investimento estrangeiro é relevante. No entanto, qualquer investimento nacional ou internacional relevante preocupa-se mais do que com a taxa de IRC (+ ou -2%) com a segurança jurídica, com a eficácia da Justiça e da Administração Pública, com agilização e transparência dos licenciamentos e por aí vai. Infelizmente nestas matérias todos os investidores sofrem as passas do Algarve e fica difícil atrair novos projectos. O IRC pode ser aproveitado como instrumento de política económica e para esse efeito propôr incentivos a quem reinvista ou invista: os lucros; no interior; na recuperação de património histórico; na fusão de PME; nas melhorias salariais acima da inflação.

Tendo em conta a flagrante falta de mão-de-obra em vários sectores de actividade em que estamos envolvidos (hotelaria, agricultura, construção) é da maior urgência regulamentar a legislação que facilitou a recepção de cidadãos da CPLP de forma a tornar esta medida funcional. Mas é preciso também criar condições para os acolher, a começar pela habitação. Os programas de habitação social para arrendamento e/ou venda são hoje determinantes para fixar pessoas e atrair pessoal estrangeiro para vários sectores. Veja-se o exemplo de Oeiras de terem construído habitação para jovens nos centros das várias localidades do concelho, como é o caso de Paço de Arcos. A dança e contradança do futuro da TAP que gera insegurança em todos os que lá trabalham precisa de definição urgente quanto ao seu destino. Mas pior que tudo, temos no horizonte uma nova calamidade – a seca. Sem água não há turismo nem vida! Mas não há qualquer reacção. A apatia está instalada. Para além de medidas de natureza ambiental que são decisivas e urgentes nesta matéria é hora de pensar a sério num programa de dessalinização. Continuamos a apostar apenas em medidas soltas e desgarradas. Falta uma estratégia para o turismo e para o país. O turismo atingiu um nível bem elevado, uma vez mais é o motor do crescimento económico. O país é pequeno, temos de continuar a crescer no turismo, mas mais em receita do que em volume de clientes. Este desígnio é óbvio. Todos o queremos. Mas não cai do céu. É preciso definir uma estratégia e fazer o trabalho de casa. Para este objectivo teremos de apostar:

  • Recuperação do património histórico sobretudo no interior do país;
  • Melhoria do número de oferta turística global com atracção de marcas fortes;
  • Valorização do número de pessoal de hotelaria com formação, melhoria de salários e carreiras profissionais;
  • Melhoria das infra-estruturas máxime a ferrovia;
  • Limitação dos cruzeiros (só os que tenham saída ou chegada a Lisboa);
  • Para fixar pessoal em Portugal é urgente uma política de habitação;
  • O aeroporto depende da estratégia que se venha a definir para o crescimento;
  • Museu dos Descobrimentos;
  • Criação de polos de atracção turística, diversificando a oferta das cidades para vários locais das mesmas;
  • Restaurantes portugueses no mundo num patamar de excelência, Marca Portugal;
  • Licenciamentos.

Depois de um simplex inovador a situação está a piorar.

Testemunho publicado na edição de Outubro (nº. 199) da Executive Digest, no âmbito da XXVI edição do seu Barómetro.

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