A especialista do Instituto de Estudos de Segurança (ISS) de Pretória Lizette Lancaster defendeu que as tensões eleitorais e a retórica de líderes populistas de direita estão na base dos atos de xenofobia na África do Sul.
A investigadora em justiça e prevenção de violência do ISS disse à agência Lusa que o que se está a observar no país da África Austral “é apenas o começo da temporada de campanha das eleições locais e governamentais de 2026”.
Além desta observação, a investigadora declarou que “há partidos políticos com políticas populistas, que estão a fazer os imigrantes serem culpados por alguns dos problemas no país”.
Lizette Lancaster apontou que as principais razões para estes comportamentos devem-se aos altos níveis de pobreza e desemprego, e à insegurança alimentar.
“As pessoas do resto de África competem para trabalhar com os locais sul-africanos. Então, é muito isolado e há áreas com altos níveis de desemprego e pobreza”, destacou a especialista, lembrando que o desemprego afeta cerca de 33% dos sul-africanos.
Outra das razões apontadas é a corrupção nos postos fronteiriços, que leva à entrada de imigrantes irregulares e indocumentados no país.
Para Lizette Lancaster, num dos “países mais desiguais do mundo”, a sobrevivência diária tornou-se um desafio extremo para a maioria da população.
Relativamente às comunidades lusófonas, a perita observou que, enquanto a presença angolana é reduzida, a comunidade moçambicana é das mais expressivas devido à proximidade geográfica.
“No passado temos visto casos isolados onde eles [os cidadãos moçambicanos] foram atacados”, porque muitos deles vivem em comunidades que “estão desesperadas economicamente”.
Lancaster referiu também que os Governos que aconselharam os seus cidadãos a manterem a calma ou retirarem-se do país, como o Gana, estão a ser cuidadosos devido a outros eventos que aconteceram no passado.
Questionada sobre soluções para mitigar a situação no país africano, a especialista do ISS disse que o Governo está a colaborar com a sociedade civil para sensibilizar a população sobre a lei e o crime de incitamento à violência.
“A Constituição da África do Sul protege todos que vivem nela, legais ou ilegais, documentados ou indocumentados, nacionais e estrangeiros”, concluiu.
Na quinta-feira, o porta-voz do Serviço Nacional de Migração (Senami) de Moçambique disse que um total de 2.694 moçambicanos foram deportados pela África do Sul desde janeiro deste anos, por permanência ilegal e violação de fronteiras.
Segundo a ministra dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, Bianca Odumegwu-Ojukwu, pelo menos 130 cidadãos nigerianos residentes no país da África Austral pediram a repatriação deste país devido aos crescentes atos xenófobos contra migrantes africanos.
Já o Presidente do Gana, John Mahama, autorizou na terça-feira, a retirada imediata de 300 ganeses e o Governo anunciou que vai solicitar à União Africana (UA) que aborde os ataques xenófobos e envie uma “missão de investigação” à África do Sul na próxima reunião semestral dos Estados-membros, que se realizará em El Alamein, no Egito, de 24 a 27 de junho.
A África do Sul tem registado manifestações e tensões sociais visando a migração, sendo que, no início do mês, uma marcha contra a imigração culminou em ataques a negócios de estrangeiros na província do Cabo Oriental, este do país.
As tensões xenófobas são um problema recorrente na África do Sul. Inúmeras comunidades de imigrantes foram repatriadas pelos próprios países, como Moçambique ou a Nigéria, e a África do Sul foi alvo de duras críticas internacionais por xenofobia.
Os incidentes mais graves dos últimos tempos ocorreram no final de 2019, com 18 estrangeiros mortos, segundo dados da organização Human Rights Watch.











