O Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Gustavo Tato Borges, critica a medida de permitir que pessoas em confinamento devido à Covid-19 possam sair de casa para votar, sublinhando que isso vai abrir um precedente para muitas outras situações.
“O que acontece agora é que se criam precedentes para as pessoas terem exceções e poderem sair. O próprio Governo diz que há situações mais importantes do que o confinamento, pelo que se torna praticamente impossível obrigar alguém a ficar em confinamento”, refere em declarações à Multinews.
Tato Borges sublinha que o trabalho dos médicos de saúde pública “está completamente limitado naquilo que é a sua essência e capacidade de intervenção. Como perdemos esta margem de manobra temos a obrigação de pedir a escusa de responsabilidade. Não temos condições para trabalhar, para exercer aquilo que é a nossa função, e por isso não nos podem ser imputadas consequências”, afirma.
O responsável insiste que “as pessoas a partir de agora têm uma exceção para ir votar, de que forma é que eu posso dizer a alguém que não vai ao funeral de um familiar direto porque está em confinamento, ou que não pode ir a uma consulta médica que estava há espera há meses?”, questiona.
“Tudo isto faz com que seja muito difícil dizer a uma pessoa que não pode fazer algo porque tem de ficar isolada, as pessoas vão recusar”, aponta adiantando que “ao longo deste tempo tivemos muitas que já o fizeram, algumas colocaram processos em tribunal a pedir a sua libertação, partindo até para ameaças de processo-crime por abuso de autoridade por parte das autoridades de saúde”.
Para Tato Borges, “com esta decisão, o Governo está dizer que claramente esta medida de isolamento não é importante, nem necessária e nós (médicos) ficamos muito mais fragilizados, podendo até ser alvo de processos em tribunais”, lamenta.
“Agora nenhum médico de saúde pública vai poder dizer a alguém que tem de ficar em casa, quanto muito dirá ‘a responsabilidade é sua’ e dessa forma algumas pessoas vão sair” e recusar o isolamento, refere.
Esta decisão, adianta ainda, “abre uma caixa de pandora, que faz com que não haja espaço de manobra para os médicos de saúde pública e até mesmo para as forças policiais fazerem aquilo que fizeram até agora: combaterem a pandemia”, conclui.


