Apesar de não ter hipóteses reais de sucesso, uma moção de censura apresentada contra a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, promete reacender as polémicas em torno da sua atuação durante a pandemia de COVID-19, especialmente no caso conhecido como ‘Pfizergate’.
A iniciativa partiu do eurodeputado romeno Gheorghe Piperea, de direita radical, que acusa Von der Leyen de falta de transparência nas negociações com a farmacêutica Pfizer em 2021, particularmente no que diz respeito à troca de mensagens de texto privadas com o CEO da empresa, Albert Bourla, durante as conversações sobre fornecimento das vacinas contra a pandemia à União Europeia.
“Será sensacional ver como Ursula von der Leyen justifica as acusações constantes na moção, sobretudo agora que o Tribunal de Justiça da União Europeia ordenou à Comissão que publique os detalhes das negociações contratuais com a Pfizer”, escreveu Piperea nas redes sociais.
Apesar de a moção ter já recolhido o apoio mínimo de 70 eurodeputados, exigido para ser formalmente apresentada, o seu sucesso é considerado altamente improvável. Para que fosse aprovada, seriam necessários dois terços dos votos expressos no Parlamento Europeu, o que, num hemiciclo com 720 assentos, significaria uma coligação improvável (e um entendimento impossível) entre diferentes espectros políticos.
Se, por absurdo, a moção fosse aprovada, implicaria a demissão imediata de toda a Comissão Europeia, obrigando os Estados-membros a designar 27 novos comissários e a reiniciar um processo de nomeação complexo e politicamente delicado.
Neste momento, os serviços do Parlamento Europeu estão a avaliar a admissibilidade formal do pedido. Caso seja aceite, será agendado um debate e votação em plenário na segunda semana de julho, onde Von der Leyen terá de se apresentar para se defender, seguindo-se intervenções dos líderes das várias famílias políticas.
Apoios escassos e divisões políticas evidentes
O apoio à moção provém essencialmente de grupos da extrema-direita, nomeadamente dos eurodeputados pertencentes às facções Patriots for Europe e Europe of Sovereign Nations. A moção terá ainda atraído alguns apoios isolados dentro do próprio Partido Popular Europeu (PPE), grupo político de Von der Leyen, nomeadamente da delegação eslovena, que já se tinha oposto à sua reeleição no verão passado.
No entanto, o núcleo duro do PPE manifestou-se frontalmente contra a iniciativa, classificando-a como “irresponsável” e “uma afronta aos cidadãos que votaram há apenas um ano”.
Outros grupos centristas e de esquerda também fecharam a porta à possibilidade de apoiar a moção, não por solidariedade com Von der Leyen, mas por rejeição da extrema-direita como promotora da iniciativa.
Iratxe García Pérez, presidente do grupo dos Socialistas e Democratas (S&D), foi taxativa: “Não apoiaremos qualquer iniciativa da extrema-direita.”
Os eurodeputados do grupo The Left, tradicionalmente críticos da presidência de Von der Leyen, também manifestaram ceticismo: “Não colaboramos com grupos de extrema-direita que têm apoiado, na prática, a agenda de Von der Leyen, e agora fingem indignação”, afirmou um porta-voz.
Escândalo ‘Pfizergate’ ressurge numa altura delicada
O regresso do caso Pfizergate à cena política europeia surge num momento de tensão crescente, com acusações de aproximação de Von der Leyen à extrema-direita, sobretudo em matérias ambientais. A aliança tácita com forças conservadoras para suavizar reformas verdes provocou críticas por parte dos socialistas e liberais, parceiros-chave da coligação centrista que a sustenta em Bruxelas.
Ao mesmo tempo, o recente acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia, que ordena à Comissão que divulgue os detalhes das negociações com a Pfizer, veio reforçar as acusações de falta de transparência no processo.
Embora não se preveja que a moção de censura altere a composição da Comissão Europeia, servirá certamente para reacender o debate em torno da responsabilidade institucional de Von der Leyen e poderá ter efeitos na sua futura recondução — ou não — ao cargo.














