Vladimir Putin comemora hoje 70 anos: sete momentos da vida do autocrata que mudou recentemente o mundo

Há sete momentos cruciais na sua vida que ajudaram a moldar o seu pensamento e explicar o seu crescente distanciamento com o Ocidente

Francisco Laranjeira

Vladimir Putin celebra o seu 70º aniversário esta sexta-feira. Mas não são esperadas grandes celebrações (à exceção do seu círculo mais próximo) depois de se ter tornado um autocrata isolado pela comunidade internacional depois da desastrosa invasão à Ucrânia, acossado pelas críticas internas e externas pela sua ambição desmedida em reconstruir a extinta União Soviética.

Há sete momentos cruciais na sua vida que ajudaram a moldar o seu pensamento e explicar o seu crescente distanciamento com o Ocidente.

Judo (1964)

Nascido em Leningrado (atual São Petersburgo), ainda marcada pelo cerco de 872 dias na II Guerra Mundial, Vladimir era um menino mal-humorado e combativo na escola – o seu melhor amigo lembrou que “ele podia bater-se com qualquer um” porque “não tinha medo”. Apesar do aspeto franzino, numa cidade invadida por gangs, era necessário disciplina e, aos 12 anos, experimentou o sambo, uma arte marcial russa, e depois o judo. Determinado, aos 18 anos tornou-se cinturão preto e conquistou um terceiro lugar numa competição nacional júnior.

O judo reforçou a sua crença de que, num mundo perigoso, é necessário ter confiança e perceber, pelas suas próprias palavras, que quando um conflito é inevitável e iminente, “deve bater-se primeiro, e com tanta força que o seu oponente não se levanta”.

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KGB (1968)

Normalmente, as pessoas evitavam ir ao 4 Liteyny Prospekt, o quartel-general da polícia política da KGB em Leningrado. Aos 16 anos, Putin entrou no edifício e perguntou ao oficial como poderia participar. Foi-lhe dito que era necessário completar o serviço militar ou um diploma, ao qual o atual presidente russo perguntou qual o melhor. Foi-lhe dito direito e, a partir desse ponto, Putin estava determinado em formar-se. Para o líder do Kremlin, o KGB era o maior ‘gang’ da cidade, que oferecia segurança e progresso mesmo para alguém sem ligação ao partido.

Cercado por uma multidão (1989)

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Apesar das suas esperanças, a sua carreira no KGB nunca descolou. Era um trabalhador sólido mas não voava alto. No entanto, empenhou-se em aprender alemão, o que lhe valeu uma nomeação para os escritórios de ligação da KGB em Dresden em 1985. Lá se estabeleceu numa vida confortável mas em novembro de 1989, o regimeda Alemanha Oriental começou a entrar em colapso. A 5 de dezembro, uma multidão cercou o prédio da KGB de Dresden. Putin ligou desesperadamente para a guarnição do Exército Vermelho mais próxima para solicitar proteção e eles responderam impotentes: “Não podemos fazer nada sem ordens de Moscovo. E Moscovo está em silêncio.” Nesse ponto, Putin aprendeu a temer o súbito colapso do poder central – e determinado a nunca repetir o que achava ser um erro do líder soviético Mikhail Gorbachev, a não responder com rapidez e determinação quando confrontado com a oposição.

Intermediação do programa ‘Oil for Food’ (1992)

Depois de deixar o KGB após a implosão da União Soviética, Putin garantiu uma posição como intermediário do novo autarca reformista da agora São Petersburgo. A economia estava em queda e Putin foi encarregado de administrar um acordo para tentar ajudar a população da cidade. Na prática, ninguém viu qualquer comida mas uma investigação, rapidamente reprimida, Putin, os seus amigos e os gangs da cidade, embolsaram o dinheiro. Nessa fase, Putin aprendeu que a influência política era rentável e os gangs não poderiam ser aliados úteis. Se todos ao seu redor estavam a lucrar, porque não ele também?

Invasão da Geórgia (2008)

Tornou-se presidente russo em 2000 e esperava poder construir um relacionamento positivo com o Ocidente, mas nos seus próprios termos, incluindo uma esfera de influência em toda a antiga União Soviética. Sentiu-se desapontado, e depois zangado, quando acreditou que o Ocidente procurava isolar e rebaixar a Rússia. ~Quando o presidente georgiano Mikheil Saakashvili comprometeu o seu país a ingressar na NATO, Putin viu o sinal vermelho e tinha uma desculpa para uma operação punitiva. Em cinco dias, as forças russas destruíram os militares georgianos e forçaram uma paz humilhante em Saakashvili. O Ocidente ficou indignado, mas um ano volvido, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ofereceu-se para “redefinir” as relações com a Rússia, a ponto de o país ter albergado o Mundial de 2018. Para Putin, tornou-se claro que o poder dava resultado… e um Ocidente fraco e inconstante ‘ia ladrar, ladrar, ladrar’ mas sem morder face a uma vontade determinada.

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Protestos em Moscovo (2011-2013)

As eleições parlamentares de 2011 foram fraudulentas, é a convicção generalizada, o que provocou protestos que só foram galvanizados quando Putin anunicou que se candidataria à reeleição em 2012. Conhecidos como os ‘Protestos Bolotnaya’ em homenagem à praça de Moscovo que encheram, isso representou a maior expressão de oposição pública a Putin. O líder do Kremlin garantiu que o protesto foi incentivo de Washington, culpando pessoalmente a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Para Putin, era uma evidência de que o Ocidente estava a vir diretamente para ele, e que, na verdade, estava agora em guerra.

Covid-19 (2020-2021)

Quando a Covid-19 varreu o mundo, Putin entrou num isolamento incomum até mesmo para autocratas personalistas, com qualquer um que o encontrasse a ser isolado durante 15 dias e depois a ter de passar por um corredor banhado em luz ultravioleta e coberto de desinfetante. Nesse período, o número de aliados e conselheiros capazes de enfrentar Putin diminuiu drasticamente para um punhado de simpatizantes e companheiros falcões. Exposto a menos opiniões alternativas e com pouco contacto com o seu próprio país, Putin parece ter “aprendido” que todas as suas suposições estavam certas e todos os seus preconceitos justificados, e as sementes da invasão da Ucrânia foram plantadas.

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