Militares russos estão a recorrer a vídeos criados ou manipulados através de inteligência artificial (IA) para apresentar como conquistados territórios que continuam sob controlo ucraniano. A prática terá como principal objetivo evitar reprimendas dos superiores perante a pressão para cumprir prazos e objetivos definidos pelo Kremlin, mas está também a criar um problema de desinformação dentro da própria estrutura militar russa.
A utilização de conteúdos falsificados foi identificada num trabalho do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), que aponta para um recurso crescente a vídeos gerados ou alterados digitalmente para simular o controlo russo sobre determinadas zonas da frente de batalha. As imagens podem mostrar, por exemplo, supostos militares russos a hastear a bandeira do país em edifícios estratégicos ou em localidades que continuam em disputa ou sob controlo das Forças Armadas ucranianas.
Segundo a análise citada, esta prática não corresponde, pelo menos por enquanto, a uma estratégia formalmente centralizada pelo Ministério da Defesa russo. O fenómeno estará antes a ser promovido por soldados destacados na linha da frente e por bloggers militares russos, que produzem e difundem os conteúdos manipulados.
A pressão exercida sobre as tropas e os comandantes intermédios estará entre as principais razões para o recurso a este tipo de falsificação. As forças russas enfrentam prazos definidos por Moscovo para alcançar determinados objetivos, incluindo a tomada de posições ou o hastear da bandeira russa em localidades consideradas estratégicas.
Quando as tropas não conseguem avançar devido à resistência ucraniana ou sofrem baixas que dificultam o cumprimento dos objetivos estabelecidos, a criação de vídeos falsos pode servir para transmitir aos escalões superiores a ideia de que as ordens foram executadas.
Vídeos falsos apresentam conquistas que não aconteceram
O mecanismo utilizado pode assumir diferentes formas, desde alterações relativamente pequenas em imagens existentes até à criação integral de cenas através de ferramentas de inteligência artificial.
Entre os exemplos identificados estão vídeos que mostram alegados soldados russos a colocar a bandeira tricolor em edifícios institucionais ou em estruturas destruídas de localidades consideradas importantes. Apesar de as imagens apresentarem uma suposta prova da presença russa, os territórios representados continuam, na realidade, sob controlo ucraniano ou permanecem em disputa.
Para observadores menos atentos, ou para superiores interessados em transmitir resultados positivos dentro da cadeia de comando, estes conteúdos podem parecer provas credíveis de avanços militares. Dessa forma, as unidades russas conseguem apresentar uma aparência de sucesso mesmo quando não conseguiram cumprir os objetivos estabelecidos.
A falsificação pode ainda permitir evitar consequências que vão desde reprimendas até à transferência para missões consideradas particularmente perigosas, bem como outras medidas disciplinares relacionadas com o incumprimento dos planos operacionais.
A desinformação ultrapassa a cadeia de comando
O impacto dos vídeos manipulados não se limita, contudo, aos relatórios internos das forças russas. A divulgação destes conteúdos através de plataformas públicas e redes sociais faz com que imagens fabricadas para consumo interno possam também ser utilizadas no contexto mais amplo da guerra de informação.
A publicação dos vídeos contribui para criar a perceção de que as forças russas mantêm um avanço constante no território ucraniano. A estratégia pode, assim, procurar influenciar a opinião pública e afetar a perceção sobre a evolução da guerra, nomeadamente ao tentar transmitir a ideia de que as linhas defensivas ucranianas estão próximas do colapso.
Esta dimensão insere-se no que é descrito como guerra cognitiva, na qual a informação e a perceção dos acontecimentos passam a constituir uma frente adicional do conflito.
Vitórias virtuais podem distorcer decisões militares
A utilização de vídeos falsos cria, ao mesmo tempo, um risco para o próprio comando militar russo. Uma informação inicialmente fabricada para convencer os superiores mais próximos pode continuar a subir na cadeia hierárquica e acabar por chegar aos níveis mais elevados do comando.
Quando isso acontece, as decisões estratégicas podem passar a ser tomadas com base numa representação distorcida da situação no terreno. Os mapas utilizados pelos responsáveis militares podem, assim, refletir posições que não correspondem à realidade e incluir conquistas que nunca aconteceram.
Esta distorção pode ter consequências sobre decisões relacionadas com o envio de reforços, a distribuição de munições de artilharia ou o planeamento de novas ofensivas. Se os responsáveis acreditarem que determinadas posições já foram conquistadas, podem tomar decisões com base numa configuração do campo de batalha que existe apenas nos conteúdos digitais produzidos através de IA.
O problema poderá tornar-se ainda mais difícil de detetar à medida que a tecnologia evolui. O ISW alerta que este método de falsificação deverá continuar a desenvolver-se e a tornar-se mais sofisticado. Com a melhoria da qualidade dos vídeos gerados por inteligência artificial e a redução dos erros visuais que atualmente podem denunciar uma manipulação, a verificação das imagens em tempo real poderá tornar-se cada vez mais complexa.
A guerra na Ucrânia passa, assim, a ter uma dimensão adicional: além dos combates no terreno, a própria representação digital do campo de batalha pode ser manipulada. Uma unidade que não conseguiu alcançar um objetivo pode criar uma vitória virtual para satisfazer os seus superiores, enquanto a propagação dessa informação pode acabar por influenciar não apenas a perceção pública, mas também as próprias decisões militares.


















