Visita histórica de Trump à China é apenas nota de rodapé: jornais chineses dão a manchete ao presidente do Tajiquistão

Chegada do presidente americano para uma ronda de reuniões com Xi Jinping foi remetida para uma chamada lateral no ‘China Daily’ e no ‘People’s Daily’, dois órgãos de comunicação próximos do aparelho estatal chinês

Francisco Laranjeira

A visita de Estado de Donald Trump a Pequim foi recebida com pompa diplomática, mas sem grande destaque nas primeiras páginas de alguns dos principais jornais chineses. Segundo a ‘Newsweek’, a chegada do presidente americano para uma ronda de reuniões com Xi Jinping foi remetida para uma chamada lateral no ‘China Daily’ e no ‘People’s Daily’, dois órgãos de comunicação próximos do aparelho estatal chinês. A opção foi lida como um possível sinal político, num país onde a imprensa oficial é frequentemente usada para marcar o tom da diplomacia.

No ‘China Daily’, a manchete principal do dia foi dedicada ao encontro de Xi Jinping com Emomali Rahmon, presidente do Tajiquistão, apesar de o comércio entre a China e aquele país da Ásia Central ser incomparavelmente inferior ao comércio sino-americano. A visita de Trump surgiu apenas em destaque secundário, embora o próprio ‘China Daily’ tenha confirmado que se tratava da primeira visita de um presidente dos Estados Unidos à China em quase nove anos e a segunda de Trump desde novembro de 2017.

O ‘People’s Daily’, órgão central do Partido Comunista Chinês, também colocou a visita num espaço lateral, mas publicou um editorial com uma mensagem cautelosa: as relações entre China e Estados Unidos “não podem voltar ao passado”, mas podem caminhar para “um futuro melhor”. O texto sublinha que a visita de Trump decorre entre 13 e 15 de maio e apresenta o encontro como uma oportunidade para dar estabilidade a uma relação marcada por anos de tensão comercial, estratégica e tecnológica.

A leitura política é evidente: Pequim recebeu Trump como interlocutor indispensável, mas sem lhe entregar todo o palco mediático. A mensagem oficial combina prudência e abertura. Por um lado, a China admite que a relação com Washington entrou numa nova fase e que já não regressará ao modelo anterior. Por outro, insiste que a diplomacia ao mais alto nível pode funcionar como “bússola” numa relação atravessada por disputas sobre comércio, inteligência artificial, Taiwan, sanções, tecnologia militar e influência no Pacífico.

A tensão mais sensível continua a ser Taiwan. De acordo com a ‘Reuters’, Xi Jinping avisou Trump de que uma má gestão do tema poderia empurrar as duas potências para uma situação “extremamente perigosa” e até para conflito. O presidente chinês terá classificado Taiwan como a questão “mais importante” nas relações entre Pequim e Washington, enquanto os Estados Unidos continuam vinculados por lei a fornecer meios de defesa à ilha, embora não mantenham relações diplomáticas formais com Taipé.

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Ainda assim, a visita não foi apenas marcada por avisos. Xi falou numa “nova configuração” da relação com os Estados Unidos, baseada sobretudo em cooperação, mas com competição controlada. Segundo a ‘Reuters’, Pequim quer uma relação “construtiva” e “estrategicamente estável” para os próximos anos, embora analistas alertem que fricções como a guerra no Irão, as sanções americanas a empresas chinesas e Taiwan podem testar rapidamente esse novo enquadramento.

Para Trump, a viagem surge num momento de grande pressão internacional e doméstica. O encontro com Xi foi apresentado pelos dois lados como uma tentativa de estabilizar a relação entre as duas maiores economias do mundo, depois de meses de guerra tarifária e de uma trégua comercial negociada em outubro. Washington procura avanços em comércio, energia, agricultura, acesso ao mercado chinês e eventual apoio de Pequim na crise do Irão; a China, por sua vez, quer menos restrições tecnológicas e mais previsibilidade estratégica.

O sinal deixado pelos jornais chineses é, por isso, quase tão relevante como a reunião em si. Trump foi recebido em Pequim, mas a imprensa oficial mostrou que a China se vê hoje menos como anfitriã em busca de aprovação americana e mais como potência capaz de definir os termos simbólicos da relação. A visita pode abrir espaço a acordos práticos, mas a primeira mensagem de Pequim foi clara: a relação com os Estados Unidos continua central, mas já não será tratada como antes.

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