Violência de extrema-direita cresce mais de 33% no mundo e já chega a 15 países, alerta relatório

O estudo contabiliza 190 incidentes protagonizados por indivíduos ou grupos desta ideologia ao longo do ano, o que representa um aumento de 33,8% face aos 142 registados no período anterior.

Pedro Zagacho Gonçalves

Um relatório do Observatório Internacional de Estudos sobre Terrorismo (OIET), entidade impulsionada pelo Coletivo de Vítimas do Terrorismo-Covite, conclui que a violência associada à extrema-direita aumentou de forma significativa em 2025, tanto em número de incidentes como na sua dispersão geográfica.

O estudo contabiliza 190 incidentes protagonizados por indivíduos ou grupos desta ideologia ao longo do ano, o que representa um aumento de 33,8% face aos 142 registados no período anterior. A maioria destes casos corresponde a ameaças e incitação à violência, embora tenham sido identificados também 19 episódios de violência consumada.

O relatório sublinha ainda que o fenómeno deixou de estar concentrado em poucos territórios, passando de nove para 15 países afetados.

Entre eles está Espanha, que registou sete incidentes em 2025, mais três do que no ano anterior, o que representa um aumento de 75%. Com estes números, o país surge como o quinto mais afetado pela violência de extrema-direita.

Os Estados Unidos ocupam o primeiro lugar da lista, com 99 incidentes, mais de metade do total global, sendo descritos pelo OIET como o “epicentro global” da violência de extrema-direita.

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O relatório indica que o país não só concentra a maior atividade extremista como também desempenha um papel de exportação de modelos organizativos, táticas e ideologias. Grupos como Patriot Front ou Blood Tribe estariam a influenciar células na Europa e na Oceânia, enquanto ideólogos norte-americanos radicalizam audiências internacionais através de plataformas digitais.

O documento identifica como elemento central das narrativas extremistas nos Estados Unidos a teoria do “substituição branca”, entendida como a perceção de uma ameaça existencial associada a mudanças demográficas e a disposição para usar violência ou ameaça como forma de resistência.

Reino Unido, Alemanha e Austrália entre os países mais afetados
O Reino Unido surge em segundo lugar, com 24 incidentes, um aumento de 166,7% face a 2024, quando tinha registado nove casos. O crescimento é associado pelo estudo às consequências do Brexit, às tensões raciais históricas e à atividade de grupos neonazis organizados como a Patriotic Alternative, descrevendo um ecossistema extremista “maduro e operacionalmente sofisticado”.

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A Alemanha e a Austrália registaram 16 incidentes cada uma. No caso alemão, o OIET destaca a persistência do país como foco de atividade neonazi e sublinha o caso do grupo Last Defence Wave, composto por adolescentes que terão planeado ataques contra refugiados, evidenciando a crescente preocupação com a radicalização juvenil.

Na Austrália, o aumento de incidentes é associado ao impacto do atentado de Christchurch, ocorrido na Nova Zelândia em 2019, no qual morreram 51 pessoas e outras 49 ficaram feridas em ataques contra mesquitas. Apesar de não ter ocorrido no país, o ataque teve forte impacto no discurso extremista na região.

Espanha entre os casos mais relevantes na Europa
Em Espanha, o relatório destaca a detenção, em novembro de 2025, de três suspeitos ligados a uma célula da organização The Base, um grupo supremacista criado em 2018 nos Estados Unidos e associado ao aceleracionismo — ideologia que defende a criação de caos através do terrorismo para acelerar o colapso do sistema.

O OIET sublinha que não se trata de indivíduos isolados, mas de uma célula estruturada com ligações internacionais.

“Não se trata de indivíduos isolados que expressam ideologia em ambientes digitais, mas sim de uma célula operacional integrada numa rede transnacional, com acesso a manuais táticos, planos de sabotagem e comunicações cifradas com atores estrangeiros”, refere o relatório, acrescentando que o caso demonstra que Espanha “já não é apenas um espaço de trânsito ideológico, mas um território onde o extremismo de direita pode estruturar-se com objetivos claramente terroristas”.

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Radicalização infantil e redes sociais em foco
Outro caso destacado é o da Suécia, não tanto pelo número de incidentes (quatro), mas pela natureza do fenómeno identificado: o recrutamento sistemático de crianças entre os 10 e os 12 anos através de plataformas digitais como o TikTok.

Segundo o estudo, conteúdos aparentemente inofensivos — como memes ou discursos sobre masculinidade — funcionam como porta de entrada para narrativas racistas e neonazis.

Dinâmicas diferentes entre Europa e Estados Unidos
O relatório aponta diferenças estruturais entre o extremismo de direita nos dois lados do Atlântico.

Na Europa, o fenómeno está mais ligado a debates políticos convencionais e existe maior permeabilidade entre partidos populistas de direita e redes extremistas ilegais, criando zonas cinzentas onde discursos xenófobos podem ser normalizados.

Nos Estados Unidos, por outro lado, o extremismo tende a operar mais à margem do sistema político formal, mas com forte capacidade de exportação ideológica.

A maioria dos incidentes são ameaças e incitação
Do total de 190 incidentes registados, 54 correspondem a ameaças de violência e 66 a incitação à violência. Apenas 19 resultaram em violência efetiva.

O OIET sublinha que esta predominância de intimidação não deve ser interpretada como falta de capacidade operacional, mas sim como uma estratégia deliberada.

O relatório descreve este padrão como uma forma de “terrorismo psicológico”, em que a ameaça funciona como principal instrumento de impacto, reservando a violência física para contextos específicos de oportunidade.

O estudo refere ainda que estes incidentes resultaram em 33 julgamentos, 22 detenções e 29 medidas legais ou administrativas, o que representa 44,4% do total.

Apesar disso, o OIET alerta que a resposta institucional continua a ser sobretudo reativa.

“As respostas reativas, embora necessárias, não estão a conseguir prevenir a radicalização inicial nem desmantelar as infraestruturas que alimentam o extremismo”, conclui o relatório.

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