VIH: O Outro Vírus e a Real Pandemia em Portugal

Por Joana Santos Silva, Professora de Estratégia e Diretora de Inovação da ISEG Executive Education

 

No último ano estivemos muito focados num vírus novo que teve um impacto estruturante no nosso dia-a-dia. Mas há muito que Portugal vive com outra pandemia – a VIH/SIDA.

Pensa-se que o VIH terá surgido em chimpanzés em 1920-30 e terá conseguido contagiar humanos na República do Congo nessa altura. Nos anos 80, dá-se início a uma pandemia global causada pelo vírus. Na altura, o vírus era muito prevalente em determinados grupos de risco: hemofílicos, homossexuais e utilizadores de drogas intravenosas.

Hoje, o estigma persiste. A ideia de que o VIH só contagia pessoas destes grupos fez crescer um laxismo a respeito da educação e prevenção do VIH/SIDA em Portugal. Por outro, a inovação terapêutica que fez com que o VIH, que representava uma sentença de morte, se tornasse antes uma doença gerível como qualquer outra doença crónica, fez abandonar programas focados na prevenção e na educação a respeito da doença. Reflitam, há quanto tempo não ouvem falar no VIH/SIDA? Há quanto tempo deixaram de ouvir falar de sexo seguro e de utilização do preservativo?

Há 3 anos, comecei a ter um papel de consultora em projetos relacionados com esta doença. Fiquei extraordinariamente surpresa, de forma negativa, com os números portugueses. Hoje, com sentido de responsabilidade, faço alertas a pessoas com crianças pré-adolescentes, adolescentes ou filhos de pais idosos. São nestas faixas etárias que o vírus mais propaga e a doença cresce.

Portugal é um dos países da Europa com maior número de diagnósticos novos, ou seja, pessoas recentemente infetadas. Em 2016, a taxa de diagnósticos foi de 12,2 casos por 100 mil habitantes, valor que é mais do dobro da média da UE. Estes novos diagnósticos ocorreram maioritariamente em homens. Metade dos novos casos tiveram origem na área de Lisboa

Contudo, contrariamente ao estereótipo, a transmissão por contacto heterossexual é a mais frequente (60,6%). Por outro, a transmissão associada ao consumo de drogas por via injetável é indicada em apenas 1,5% dos casos.

Portugal tem um problema sério no que diz respeito aos diagnósticos tardios. Por outras palavras, demoramos muito tempo a diagnosticar pessoas que estão infetadas pelo vírus VIH. Isto traduz-se em dois problemas – por um lado, os indivíduos infetados apresentam-se em pior estado de saúde quando iniciam tratamento e por outro, podem estar a infetar outros de forma incauta enquanto não são diagnosticados. De acordo com o relatório da DGS de 2020, as estimativas indicam que os diagnósticos mais precoces ocorrem nos homens que fazem sexo com homens, para os quais foi apurada uma demora diagnóstica de 2,2 anos e os mais tardios, entre os homens que adquiriram a infeção por contacto heterossexual, 5,4 anos. Isto quer dizer que existem pessoas infetadas com VIH que esperam em média 5 anos e meio para serem diagnosticadas. Este cenário é pré-COVID e a consequente dificuldade de acesso a cuidados de saúde.  Assim, estima-se que este número venha a aumentar.

Nos últimos anos, aprendi que existe muito contágio em festas designadas de “chem-sex” em que indivíduos muito jovens ficam intoxicados e participam em atividades que levam ao contágio por VIH. Muitos destes jovens ficam sem memória nem consciência de que podem ter ficado infetados. Por outro, existem inúmeras situações em que senhores de idade avançada se encontram com profissionais do sexo e ficam infetados.

A DGS tem como guideline a testagem anual de rastreio do VIH/SIDA. Contudo, devido ao estigma, à falta de educação dos cuidados de saúde primários e por não constar como objetivo estratégico da saúde em Portugal, o número de testes fica muito aquém do que devia. Assim, continuamos no topo da Europa com casos de VIH, com diagnósticos tardios e com educação insuficiente nesta área.

Se o COVID nos ensinou algo é que os vírus são perigosos e custam caro à sociedade. Urge voltar a educar a respeito do VIH em Portugal. Urge voltar a ensinar os jovens a respeito dos comportamentos de risco e falar de prevenção e de tratamento precoce. Urge rejeitar o estigma e entender que o VIH pode contagiar qualquer um, independentemente da idade, do estrato socioeconómico ou preferências sexuais. Porque esta pandemia não é de agora. Estamos nesta luta há décadas e não estamos a ganhar, seja a nível de saúde, a nível financeiro ou na perspetiva social.

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