Um vídeo captado por um drone e divulgado pelo meio de comunicação independente húngaro Telex voltou a colocar sob os holofotes a controversa propriedade de Hatvanpuszta, associada à família do primeiro-ministro Viktor Orbán.
As imagens aéreas mostram um vasto complexo avaliado em cerca de 30 milhões de euros, construído sobre uma antiga propriedade da família Habsburgo. O terreno inclui jardins meticulosamente cuidados, edifícios de arquitetura palaciana, um lago, estufas e até zebras a passear nas imediações. O nível de luxo tem gerado inevitáveis comparações com Mezhyhirya, a célebre residência do ex-presidente ucraniano Viktor Yanukóvich, que se tornou um símbolo mundial de corrupção e enriquecimento ilícito.
📸💸 Astonishing new drone footage shows Viktor Orbán's family’s lavish €30M Hatvanpuszta dacha (a former Habsburg estate) and zebras roaming nearby. Each week brings new details, making the mansion resemble Viktor Yanukovych's infamous Mezhyhirya Residence. Video by @Telexhu pic.twitter.com/XxXUkB4ng2
— Szabolcs Panyi (@panyiszabolcs) August 11, 2025
O vídeo, publicado nas plataformas X (antigo Twitter) e YouTube, mostra uma propriedade que, segundo a versão oficial, pertence exclusivamente a Győző Orbán, pai do chefe de Governo. O Executivo insiste que se trata de uma “granja em desenvolvimento”, mas as imagens contrariam essa narrativa.
O complexo inclui um parque de estacionamento subterrâneo, caminhos pavimentados com aquecimento para derreter neve, uma capela privada, um “passeio da contemplação” e um edifício principal de 2.000 metros quadrados, com biblioteca de dois andares e um átrio ao estilo de igrejas históricas.
O deputado independente Ákos Hadházy, conhecido pelas investigações contra a corrupção, apresentou ao Telex certificados energéticos oficiais que comprovam que pelo menos uma das construções é uma residência privada. Segundo o parlamentar, o complexo também alberga uma biblioteca luxuosa, salas de refeição equipadas com cozinha industrial e câmaras frigoríficas subterrâneas. “Aqui há muito pouca agricultura, para além de um pequeno horto”, ironizou Hadházy.
Custos milionários e promessas da oposição
Péter Magyar, líder do opositor Partido Tisza, estima que a construção e o equipamento da propriedade tenham custado cerca de 13 mil milhões de forints (32 milhões de euros). “Isto não é uma granja, é um palácio campestre”, afirmou numa conferência de imprensa citada pelo portal HVG.
Magyar prometeu que, caso chegue ao poder, criará uma Agência Nacional de Recuperação de Ativos para investigar a origem das fortunas dos dirigentes das últimas duas décadas, começando pela família Orbán.
A versão oficial mantém-se inalterada. O próprio Viktor Orbán, em declarações ao Válasz Online, reforçou: “Na minha família, os filhos não se metem nos assuntos dos pais”.
Ligações empresariais e suspeitas de favorecimento
Investigações de meios como Átlátszó e HVG revelam ligações empresariais em torno de Hatvanpuszta. Após o regresso de Orbán ao poder, em 2010, o seu amigo de infância e aliado político Lőrinc Mészáros — hoje considerado o homem mais rico da Hungria devido a contratos públicos — arrendou a propriedade e comprou terrenos estatais adjacentes.
Na prática, Mészáros financiou a compra da propriedade a Győző Orbán, pagando rendas enquanto usava o espaço apenas para armazenar maquinaria. Em 2023, a família adquiriu mais 25 hectares, ampliando o domínio privado. Estes movimentos reforçam as suspeitas da oposição sobre a promiscuidade entre interesses públicos e privados no círculo do partido Fidesz.
Comparações com Yanukóvich, Putin e Erdoğan
Para críticos como Hadházy, as semelhanças entre Hatvanpuszta e Mezhyhirya são evidentes: ambas incluem animais exóticos — no caso húngaro, zebras, antílopes e búfalos — e ostentação desproporcionada.
A propriedade também tem sido comparada ao alegado “Palácio de Putin” no mar Negro, denunciado pelo opositor russo Alexei Navalny, e ao Palácio Presidencial Ak Saray, do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, que conta com mais de mil quartos. Em todos os casos, o contraste entre o luxo e o discurso oficial de austeridade é notório.
O vídeo divulgado pelo Telex foi verificado por vários meios húngaros, incluindo HVG e Átlátszó, que confirmaram a correspondência com imagens de satélite e testemunhos de cidadãos. A presença dos animais exóticos foi igualmente confirmada por jornalistas e residentes locais.
Embora meios próximos do Governo tenham sugerido nas redes sociais que as zebras poderiam ter sido inseridas digitalmente, esta alegação foi rapidamente desmentida. Paralelamente, leis mais restritivas sobre o uso de drones e captação de imagens aéreas têm dificultado o trabalho de jornalistas de investigação.
Desde que foi revelado, o caso de Hatvanpuszta tornou-se um símbolo das acusações de corrupção e nepotismo contra o Executivo de Viktor Orbán, que governa ininterruptamente desde 2010.
Não existe, até ao momento, qualquer investigação judicial que comprove ilegalidades, mas a perceção pública é desfavorável: sondagens citadas pelo HVG indicam que dois em cada três húngaros acreditam que o país “segue na direção errada”.














