A chamada “via verde” para contratação de trabalhadores estrangeiros começa finalmente a ganhar velocidade quase um ano depois da sua criação. A informação foi avançada pelo ‘Expresso’, que relata um aumento significativo dos processos submetidos pelas empresas do setor da construção para trazer mão de obra do estrangeiro para Portugal.
De acordo com o semanário, Manuel Reis Campos, presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), afirma que nos últimos três meses duplicaram os processos de contratação e também o número de imigrantes para quem foi solicitado visto. Além disso, existem já vários pedidos em preparação, que são cerca de três vezes superiores aos registados em novembro. Apesar de um arranque lento, as empresas começam agora a demonstrar maior interesse pelo mecanismo.
O crescimento da procura surge num momento particularmente exigente para o setor. A construção enfrenta uma falta estrutural de trabalhadores — com cerca de 35% da mão de obra já composta por estrangeiros — e ganhou agora pressão adicional com a necessidade de reconstruir zonas do centro do país afetadas pela tempestade “Kristin”. A estas necessidades juntam-se ainda grandes projetos em curso, como obras financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), investimentos do Portugal 2030, o novo aeroporto e o projeto de alta velocidade ferroviária.
O canal privilegiado para a contratação de trabalhadores estrangeiros foi criado pelo Governo a 1 de abril de 2025, depois do fim das chamadas manifestações de interesse e do encerramento dos vistos para procura de trabalho — exceção feita aos profissionais altamente qualificados. O objetivo foi permitir que empresas pudessem recrutar trabalhadores diretamente nos países de origem, com mediação das confederações empresariais.
Até 3 de março, a CPCI tinha encaminhado 211 processos de pedidos de visto para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. Segundo o ‘Expresso’, a maioria corresponde a pedidos coletivos e envolve 1.427 trabalhadores destinados à construção, aos quais se juntam mais 259 processos ainda em preparação.
Grande parte destes trabalhadores já se encontra a trabalhar em obras em Portugal. Muitos vieram de países africanos de língua portuguesa, como Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Seguem-se países da América Latina, nomeadamente Brasil, Colômbia e Peru, bem como novas origens como Marrocos, Senegal, Paquistão e Índia.
Entre as empresas que já recorreram ao mecanismo estão algumas das maiores construtoras nacionais, incluindo a Mota-Engil, a Casais e a DST. Manuel Reis Campos garante que os prazos de resposta dos consulados estão a ser cumpridos e permanecem abaixo do limite máximo de 20 dias, acrescentando que não chegaram queixas sobre dificuldades no processo.
Apesar do aumento de pedidos, os números ainda ficam longe da necessidade estimada de trabalhadores no setor. A Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) calcula que faltem cerca de 80 mil profissionais para responder à procura atual.
Ainda assim, o responsável acredita que o atual canal de contratação poderá ser suficiente se mantiver o ritmo de crescimento. Além da imigração, considera que Portugal deve também apostar na formação dos cerca de 1,5 milhões de imigrantes que já vivem no país, de forma a atraí-los para o setor da construção.
Por essa razão, Manuel Reis Campos discorda da hipótese levantada por Marcelo Rebelo de Sousa de criar um novo mecanismo específico para responder às necessidades provocadas pela tempestade “Kristin”. Na sua perspetiva, a criação de novos instrumentos pode gerar desorganização e até abrir portas à irregularidade, defendendo antes que o atual sistema deve continuar a funcionar sem alterações.
No curto prazo, concorda antes com a possibilidade sugerida pelo ministro Castro Almeida de permitir o adiamento temporário de algumas obras públicas, para que as empresas possam deslocar trabalhadores para as zonas mais afetadas pela tempestade.
O Governo já garantiu que a catástrofe natural não irá alterar a política migratória e que será dada prioridade à contratação de trabalhadores que já se encontrem em Portugal. Ainda assim, os dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional sugerem dificuldades. Em dezembro de 2025 estavam inscritos como disponíveis apenas 9.343 profissionais da construção em todo o país. Na região centro — a mais afetada pelos danos da tempestade — existiam apenas 1.002 trabalhadores registados como disponíveis.




