Vermelho ou encarnado? Como um inseto esmagado deu origem à cor da riqueza e poder que invadiu Europa e América

Uma das suas origens mais surpreendentes vem de um pequeno e insignificante inseto que, há séculos, mudou a forma como a cor foi utilizada na Europa e na América.

Pedro Gonçalves
Abril 5, 2025
19:00

O vermelho, cor tão associada à riqueza, poder e paixão, tem uma longa história de fascínio e controvérsia. Desde os tempos bíblicos até à arte moderna, a tonalidade vermelha percorre as páginas da história da humanidade de uma forma que mistura mistério, magia e até exploração. Uma das suas origens mais surpreendentes vem de um pequeno e insignificante inseto que, há séculos, mudou a forma como a cor foi utilizada na Europa e na América.

A cor vermelha sempre foi carregada de simbolismo. Na tradição cristã, desde o Antigo Testamento, o vermelho aparece como uma cor proibida, associada ao pecado e ao erro, e utilizada para marcar proibições, como nas listas negras, sinais de alerta e até em semáforos. Ao mesmo tempo, o vermelho tem sido uma cor desejada, atraente e fascinante, muito procurada por artistas e designers, mas extremamente difícil de obter de forma eficaz e duradoura.



Na Europa clássica, o roxo já era conhecido como uma cor luxuosa, produzida a partir de um tipo de caracol marinho, o murex, que era esmagado para produzir um corante caríssimo. No entanto, o vermelho permanecia escasso e de difícil obtenção, com as tentativas iniciais, como o “vermelho Turquia”, uma mistura da cor originária do Império Otomano, falhando em termos de qualidade — tanto na intensidade da cor quanto no odor desagradável causado pela composição da tinta, que incluía estrume de vaca, azeite rançoso e sangue de novilho.

A descoberta da cochonilha e a ascensão do vermelho
A grande revolução na produção do vermelho aconteceu quando os europeus chegaram às Américas no século XVI e descobriram a cochonilha — um inseto encontrado principalmente no México e em outras regiões da América Central. Este pequeno inseto, quando esmagado, produzia um corante vermelho vibrante, conhecido como carmim, que se tornou altamente valorizado em todo o mundo. As civilizações mesoamericanas, como os astecas, já usavam a cochonilha desde cerca de 2000 a.C. para tingir tecidos, pintar murais e até para usos medicinais.

No entanto, foi apenas com a chegada dos espanhóis, liderados por Hernán Cortés, que a cochonilha se tornou um produto-chave no comércio europeu. Inicialmente, o conquistador espanhol não reconheceu o potencial da cochonilha, mas, mais tarde, o rei espanhol viu nela uma oportunidade de controlar as finanças do império e garantir a hegemonia do Reino de Espanha. Através de um sistema de monopólio e leis rigorosas, os espanhóis começaram a explorar os povos indígenas da América Central, forçando-os a produzir grandes quantidades de cochonilha, com os governantes astecas recebendo pagamentos em quilos de cochonilha e rolos de tecido tingido de vermelho.

O impacto na Europa e a pintura renascentista
O impacto dessa descoberta na Europa foi imediato. A cochonilha transformou-se numa das matérias-primas mais valiosas para a produção de tintas e tecidos e rapidamente se espalhou pela nobreza europeia, sendo amplamente utilizada em obras de arte, especialmente durante o Renascimento. Pintores famosos como Diego Velázquez e outros mestres da época começaram a incorporar o vermelho vibrante proveniente da cochonilha nas suas pinturas, criando obras que evocavam riqueza, poder e nobreza. A cor vermelha, portanto, tornou-se um símbolo de status, sendo associada a dinastias e à elite.

Ainda hoje, o vermelho de cochonilha é utilizado em diversas áreas da arte, como comprovam os quadros de artistas modernistas como Paul Gauguin, Auguste Renoir e Vincent van Gogh, que usaram esta cor intensa para trazer vida e emoção às suas telas. No México, a cochonilha ainda está associada a práticas espirituais e é considerada um símbolo de proteção e magia ancestral.

O simbolismo e a terminologia do vermelho
Em Portugal, a terminologia usada para descrever diferentes tonalidades de vermelho tem raízes profundas na história. A palavra “vermelho” deriva do latim “vermiculus”, que significa “pequeno verme”, uma referência direta ao inseto que originou a cor vibrante. Já o termo “encarnado” tem uma origem diferente, associada à cor da carne viva, provavelmente devido à forte ligação do vermelho ao sangue e à vitalidade.

Esta distinção entre “vermelho” e “encarnado” reflete também as diferentes perceções da cor na cultura portuguesa, que tem uma ligação particular com a cor associada à vida, ao sacrifício e à religião. Enquanto o vermelho é muitas vezes associado ao poder, à realeza e à arte, o encarnado pode ter uma conotação mais relacionada ao quotidiano e à carne.

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