Venezuela: Está Maduro “encurralado” entre a espada e a parede? O que explica a crise do Chavismo

Nicolás Maduro vê-se cada vez mais “encurralado”, não apenas pelas críticas internas que denunciam fraude eleitoral, mas também pela crescente pressão internacional.

Pedro Zagacho Gonçalves

Nicolás Maduro vê-se cada vez mais “encurralado”, não apenas pelas críticas internas que denunciam fraude eleitoral, mas também pela crescente pressão internacional. O cenário político venezuelano atingiu um ponto crítico após as eleições de 28 de julho, com aliados tradicionais do chavismo a saírem em apoio imediato a Maduro, enquanto líderes de países latino-americanos influentes exigem maior transparência e verificação dos resultados.

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Na noite das eleições, a Venezuela voltou a ser o epicentro de intensos debates, polémicas e protestos. Após a divulgação dos resultados pelo Conselho Nacional Eleitoral, os aliados mais próximos de Maduro, incluindo Cuba, China, Irão, Nicarágua e Bolívia, enviaram felicitações quase instantaneamente. No entanto, o apoio esperado de Brasil, México e Colômbia, grandes nações latino-americanas governadas pela esquerda, não se materializou. Estes países, que se esperava que apoiassem Maduro, abstiveram-se de reconhecer os resultados de imediato. Um duro golpe para Maduro, por parte destes ‘aliados’.

Na quinta-feira passada, Lula da Silva (Brasil), Andrés Manuel López Obrador (México) e Gustavo Petro (Colômbia) realizaram uma reunião virtual para discutir a situação na Venezuela. O resultado desse encontro foi um comunicado conjunto exigindo uma “verificação imparcial” dos resultados eleitorais e a divulgação das atas. Esta posição representa uma significativa mudança na dinâmica de apoio, uma vez que os líderes latino-americanos que eram anteriormente simpáticos ao chavismo agora estão a exigir maior clareza.

O advogado brasileiro Paulo Abrão, ex-secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), destaca em entrevista ao El Confidencial a importância dessa abordagem: “A posição dos governos de Brasil, Colômbia e México já produziu um resultado importante ao abrir um canal de diálogo sobre a apresentação das atas eleitorais. Sem esse canal, a mediação da crise seria praticamente impossível, e os países estariam a proclamar unilateralmente a vitória de um ou outro candidato.”

Abrão, que agora é diretor do Washington Brazil Office (WBO), acrescenta que a insistência na transparência eleitoral e na apresentação das atas representa uma tentativa de evitar o isolamento contínuo da Venezuela e procurar alternativas para uma solução pacífica.

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A tensão continua a aumentar, com mensagens dos líderes latino-americanos ganhando destaque. Gustavo Petro, que restabeleceu relações diplomáticas com a Venezuela no início de seu mandato, expressou “sérias dúvidas” sobre o processo eleitoral, pedindo uma “verificação transparente” e uma “observação internacional profissional.” Lula da Silva também reiterou a necessidade de transparência, especialmente após suas declarações pré-eleitorais sobre o potencial para “banho de sangue” caso Maduro perdesse as eleições.

Além dos líderes latino-americanos, a crítica vem de vários outros países. Cristina Fernández Kirchner, da Argentina, e Fernando Pereira, do Uruguai, também exigiram a divulgação das atas, com Pereira criticando a existência de “detidos políticos” e a violação das liberdades em Venezuela. Gabriel Boric, presidente do Chile, foi o mais contundente, recusando-se a reconhecer a vitória de Maduro e exigindo a cessação das “detenções arbitrárias e da violência”. Em resposta, Maduro expulsou os diplomatas chilenos e criticou Boric, chamando-lhe “cachorrinho do império” e comparando as suas ações a uma “oferta ao seu líder oculto Pinochet”.

Os Estados Unidos também estão a acompanhar de perto a situação. O porta-voz do Departamento de Estado, Mathew Miller, confirmou que o ministério está “em contato próximo” com os parceiros regionais, como Brasil, México e Colômbia, para encontrar um caminho a seguir. No entanto, o Secretário de Estado Anthony Blinken reconheceu, a 1 de agosto, a vitória de Edmundo González nas urnas, mas Miller esclareceu que ainda não reconhecem González como presidente e exigem negociações para uma transição democrática.

A postura dos EUA tem sido interpretada por alguns analistas como uma tentativa de não prejudicar as negociações lideradas por Petro, Lula e López Obrador, que se esforçam para promover uma solução negociada para a crise.

A Influência da Europa e o Futuro da Crise

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Outros países, como Espanha e França, também estão envolvidos nas discussões. O Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, afirmou estar “em contato permanente” com seu homólogo brasileiro e colombiano, exigindo a entrega das atas eleitorais. Emmanuel Macron, presidente francês, conversou com Lula para tratar da crise e elogiou a postura brasileira de promover o diálogo.

No entanto, a posição de Brasil, México e Colômbia foi questionada quando estes países se abstiveram de votar a favor de uma resolução contra o governo venezuelano na OEA. Isso foi visto por alguns como uma tentativa de preservar a interlocução com Maduro.

Divisão Interna e Possível Reeleição

Dentro da própria Venezuela, há uma divisão crescente entre os chavistas. Ex-dirigentes que foram leais a Hugo Chávez e não a Maduro estão a exigir a publicação das atas e criticando a repressão contra setores populares e dirigentes políticos. Alguns propõem a anulação das eleições e a convocação de novos pleitos, o que a oposição considera inaceitável, mas que poderia indicar irregularidades significativas.

A crise na Venezuela continua a evoluir, com a possibilidade de uma reunião de ministros de Exteriores se houver avanços nas negociações. O presidente panamenho, José Raúl Mulino, já sugeriu a realização de uma cimeira para discutir a situação.

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O cenário atual reflete uma crescente pressão internacional e regional sobre o governo de Nicolás Maduro, enquanto a comunidade internacional tenta encontrar uma solução para uma crise política e eleitoral que continua a desafiar a estabilidade da Venezuela.

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