Os sectores empresariais mais expostos ao mercado chinês já sentem os efeitos da paralisação no gigante asiático, desde a falta de matérias-primas, à dificuldade em despachar mercadorias, custos de expedição mais elevados, compradores chineses desaparecidos e encomendas suspensas ao adiamento de feiras internacionais, viagens e reuniões.
«Vai ser muito pior que o Lehman Brothers. A globalização foi sendo feita de forma selvagem e as empresas europeias estão fragilizadas porque estão reféns da Ásia, que abastece 90% do têxtil, vestuário e calçado», prevê César Araújo, porta-voz do sector do vestuário, em declarações ao “Jornal de Negócios”. O responsável fala num «impacto em cadeia», relatando que os tecidos, forros, telas e etiquetas já começam a escassear nos armazéns das quatro mil fábricas nacionais, que empregam 120 mil pessoas, e «não é fácil» encontrar fornecedores alternativos.
Ana Dinis, directora executiva da Associação dos Industriais do Têxtil, alerta que o fabrico pode mesmo ficar impossibilitado, uma vez que há encomendas que as empresas têxteis já produziram e que não estão a conseguir expedir. Certo é, para já, o custo acrescido nos stocks, no armazenamento e nos contentores.
Do lado do calçado, embora as exportações para a China e Hong Kong tenham crescido a dois dígitos em 2019, ascendendo a quase 30 milhões de euros, Paulo Gonçalves, da Associação Portuguesa Ind. Calçado Componentes Artigos Pele Sucedaneos, faz notar alguma «preocupação» com a hipótese de as centenas de importadores chineses não marcarem presença na maior feira mundial do sector, em Milão.
Em 2019, a China era o 15.º maior cliente e o sexto fornecedor de Portugal, pesando apenas cerca de 1% nas exportações portuguesas de bens. Desde o início do ano até Novembro, as vendas de mercadorias para o destino caíram 10%, aproximando-se dos 553 milhões de euros, o que agravou o défice bilateral para cerca de 2.200 milhões de euros, uma vez que as compras aos chineses subiram 26% nesse período. A taxa de cobertura das importações pelas exportações ficou-se pelos 20%, mostram dados disponibilizados pela Associação Empresarial de Portugal “ao Jornal de Negócios”.
As empresas do sector extractivo e transformador das rochas ornamentais também dão conta de que «a situação tem tendência a piorar» e que «o impacto poderá vir a ser considerável». «No início do ano era natural estarem já em Portugal os compradores chineses para selecionar a pedra que pretendem comprar e ainda não vieram. Como os bancos na China estão fechados também não há cartas de crédito, o que impede os negócios. Os portos estão a trabalhar abaixo da normalidade e as empresas estão com dificuldade em enviar blocos, até pela falta de contentores – e se não retornarem cheios para a Europa, os preços tendem a disparar. E muito material de desgaste para os equipamentos, apesar de adquirido na Europa, é fabricado na China, podendo haver rutura de stocks», resume Francelina Pinto, directora executiva da Associação Nacional da Indústria Extractiva e Transformadora.
O jornal aponta ainda que não é só a indústria que está a sofrer com o impacto do coronavírus. A Pinto Lopes Viagens, agência especializada em viagens culturais de grupo para maiores de 60 anos, cancelou os quatro circuitos que tinha na China e também os trajectos naquele território, como os cruzeiros, e tem tido alguns cancelamentos para outros destinos asiáticos. A pausa na operação está, para já, prevista até ao início de Junho.












