Donald Trump poderá estar a preparar uma mudança importante na equipa encarregada de tentar pôr fim à guerra na Ucrânia, com o diretor da CIA, John Ratcliffe, a assumir um papel cada vez mais relevante nas negociações com Moscovo e Kiev.
A possibilidade está a ser bem recebida por vários responsáveis em Washington, sobretudo entre aqueles que consideram a atuação do atual enviado especial Steve Witkoff pouco eficaz e demasiado amadora.
Mas há uma ressalva importante: a Casa Branca nega que a alteração esteja decidida.
Segundo o ‘Meduza’, citando informações publicadas pelo ‘Financial Times’ e pelo ‘POLITICO’, Ratcliffe poderá assumir um papel mais importante na diplomacia entre Rússia e Ucrânia, sem necessariamente afastar Witkoff das negociações.
O ‘Financial Times’ avançou que responsáveis dos EUA já comunicaram a interlocutores europeus que o diretor da CIA deverá desempenhar um papel maior nas tentativas de reanimar um processo negocial que continua sem avanços significativos. Fontes próximas do processo indicaram, porém, que Trump ainda não tomou uma decisão final.
Ratcliffe poderá negociar ao lado de Witkoff
O cenário em discussão não implica necessariamente uma substituição total.
De acordo com o ‘Financial Times’, Ratcliffe poderia assumir maior protagonismo nas deslocações e contactos entre Moscovo e Kiev, mantendo simultaneamente os canais com os serviços de informações dos dois países.
Witkoff continuaria envolvido, enquanto Jared Kushner, genro de Trump, poderá concentrar-se progressivamente nas negociações relacionadas com Gaza e com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão.
A Casa Branca rejeitou, contudo, a informação, classificando-a como “totalmente falsa”.
O ‘POLITICO’ relata que, apesar dessa negação oficial, a possibilidade de Ratcliffe ganhar protagonismo despertou entusiasmo entre vários responsáveis dos EUA, que o consideram um negociador mais sólido do que Witkoff.
“Conhece muito bem as questões russas”
Matthew Boyse, que trabalhou nos assuntos euroasiáticos do Departamento de Estado durante a primeira Administração Trump, considera que Ratcliffe chegaria às negociações com uma vantagem importante.
“Se Ratcliffe se envolver, conhece muito bem as questões russas”, afirmou. Isso não significa, porém, que uma mudança de negociador seja suficiente para desbloquear a guerra. Uma das fontes considera que pouco mudará enquanto Washington não aumentar efetivamente a pressão sobre Moscovo através de sanções mais duras e de maior apoio militar à Ucrânia.
Boyse também desaconselha expectativas de um avanço rápido.
A razão está no Kremlin.
Vladimir Putin continua a acreditar que o tempo joga a seu favor e, por isso, não demonstra vontade de abandonar aquilo que Boyse descreve como posições maximalistas rígidas.
Essa avaliação é compatível com o que fontes envolvidas nas recentes negociações disseram ao ‘Financial Times’: apesar das últimas deslocações de Witkoff e Kushner a Moscovo e Kiev, os enviados dos EUA apresentaram poucas ideias novas e Putin deu poucos sinais de estar disposto a recuar nas suas exigências.
Witkoff está a perder apoio em Washington
É também aqui que entra a segunda parte desta história.
Não se trata apenas da ascensão de Ratcliffe. Há responsáveis em Washington cada vez mais críticos da forma como Witkoff tem conduzido um dos processos diplomáticos mais delicados do mundo.
O Meduza recupera um episódio relatado pelo ‘POLITICO’ após uma recente reunião com Putin.
Witkoff terá dito ao presidente russo que, quando ambos se reformassem, teriam “histórias incríveis” e memórias daquele período.
A reação de um responsável de Washington ouvido sob anonimato foi devastadora: questionou quem fala de reforma numa reunião daquela importância e rematou dizendo que Witkoff estava a “envergonhar” os EUA.
As críticas ao perfil diplomático de Witkoff e Kushner não são novas. O próprio ‘Financial Times’ publicou esta semana uma análise particularmente dura, acusando ambos de abordarem conflitos geopolíticos extremamente complexos com uma lógica excessivamente próxima da negociação empresarial e imobiliária.
E Ratcliffe já esteve em Moscovo
Há ainda um episódio que aumenta a especulação sobre o futuro papel do diretor da CIA.
Ratcliffe fez uma visita inesperada a Moscovo no final de agosto.
O objetivo exato da deslocação nunca ficou totalmente esclarecido.
Responsáveis dos EUA e da Rússia procuraram diminuir a sua importância, apresentando-a como parte dos contactos regulares entre serviços de informações. Trump descreveu-a como uma visita “mais ou menos de rotina”.
Mas fontes citadas pelo ‘Financial Times’ afirmam que Ratcliffe discutiu com altos responsáveis dos serviços secretos russos não apenas a guerra na Ucrânia, mas também a guerra com o Irão e as ameaças híbridas russas contra a Europa.
Os relatos sobre a deslocação chegaram a apontar para uma possível reunião com Putin.
Segundo duas fontes do ‘Financial Times’, o presidente russo tinha inicialmente previsto encontrar-se com Ratcliffe, mas terá desistido depois de o diretor da CIA transmitir aos responsáveis russos uma avaliação negativa sobre a evolução da guerra para Moscovo.
O Kremlin negou que tal encontro alguma vez tivesse estado previsto.
Kiev diz que o problema não está nos negociadores
Na Ucrânia, pelo menos publicamente, a eventual troca de protagonistas não parece provocar grande ansiedade.
Uma fonte ucraniana não ter ainda informação de que Ratcliffe passará a liderar o dossier, salientando que Kiev trabalha com Washington “a todos os níveis, incluindo a CIA”.
Outros responsáveis ucranianos ouvidos pelo Financial Times disseram manter boas relações tanto com Ratcliffe como com Witkoff e Kushner e não manifestaram preferência sobre quem deverá conduzir as negociações.
Para Kiev, a questão fundamental parece estar noutro lugar.
As últimas visitas dos enviados de Trump a Moscovo e Kiev terminaram novamente sem qualquer avanço decisivo, enquanto a Rússia retomou pouco depois ataques de grande dimensão contra a capital ucraniana.
Mudar o homem sentado à mesa pode alterar a forma como Washington negoceia.
Mas, enquanto Putin considerar que tem mais a ganhar prolongando a guerra do que fazendo concessões, o problema poderá continuar a ser exatamente o mesmo — independentemente de quem Trump mandar para Moscovo.


















