O arranque do Festival de Cinema de Cannes, na terça-feira, voltou a colocar o aeroporto de Cannes–Mandelieu no centro do tráfego de jatos privados, numa altura em que a Europa enfrenta uma crescente crise no abastecimento de combustível de aviação.
Apesar dos alertas sobre a escassez de querosene e do aumento acentuado dos preços, os voos privados registaram uma subida significativa. Segundo o Carbon Sky Index, plataforma de monitorização das emissões da aviação privada, as partidas de jatos executivos na Europa aumentaram 10% em abril face a março.
No total, foram contabilizadas 23.462 partidas de jatos privados em abril na Europa. A plataforma explicou que a Páscoa poderá ter sido o “principal motor” desta subida. O aeroporto de Nice Côte d’Azur, por exemplo, quase duplicou o tráfego de jatos privados na semana de 6 de abril — um padrão semelhante ao observado no período pascal do ano passado.
O Carbon Sky Index baseia-se em sinais de transponder das aeronaves em toda a Europa e processa esses dados de acordo com a metodologia de emissões adotada pela organização europeia de navegação aérea Eurocontrol.
Preços do combustível duplicam e reservas atingem nível crítico
O aumento do tráfego privado ocorre num contexto de forte perturbação no mercado energético. A interrupção do transporte marítimo através do Estreito de Ormuz fez disparar os preços do combustível de aviação na Europa para o dobro dos níveis pré-guerra, na sequência do conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão.
De acordo com uma análise da Goldman Sachs partilhada com o POLITICO, as reservas comerciais de combustível de aviação na Europa — excluindo reservas governamentais — poderão descer abaixo de 23 dias de abastecimento até ao final de maio ou início de junho. Este limiar é considerado crítico pela Agência Internacional de Energia.
Enquanto isso, grandes companhias aéreas como a SAS e a Lufthansa estão a cortar milhares de voos devido ao aumento dos custos do combustível.
Emissões aumentam, mas setor minimiza impacto
Os dados do Carbon Sky Index indicam que o aumento de voos privados em abril elevou as emissões de CO₂ para 83.847 toneladas métricas, acima das cerca de 80.000 toneladas registadas em março.
Ainda assim, o setor da aviação privada representa apenas uma fração do total das emissões do setor aéreo. Segundo a organização ambiental Transport & Environment (T&E), as emissões totais da aviação na Europa atingiram 195 milhões de toneladas de CO₂ em 2025.
O lobby da aviação executiva rejeita, contudo, que o aumento recente represente um problema estrutural.
“Um aumento semanal de curto prazo não indica, por si só, uma subida estrutural da procura”, afirmou Róman Kok, diretor de assuntos públicos da Associação Europeia de Aviação Executiva.
Segundo Kok, “abril inclui fortes efeitos sazonais e relacionados com a Páscoa, e o tráfego da rede europeia em geral manteve-se abaixo dos níveis de 2025 em várias semanas de abril”, citando dados do Eurocontrol.
O responsável acrescentou ainda que a aviação executiva representa “cerca de 7% dos voos na Europa” e uma proporção ainda menor do consumo total de combustível. Assim, as poupanças resultantes de uma eventual suspensão desses voos “seriam limitadas e não contribuiriam concretamente para enfrentar o desafio energético mais amplo”, defendendo antes a expansão dos combustíveis sustentáveis de aviação como solução.
Ativistas acusam setor de irresponsabilidade
As organizações ambientais e alguns antigos profissionais do setor não aceitam esse argumento, segundo reclamam ao jornal Politico.
Katie Thompson, ex-piloto de jatos privados que agora faz campanha pela redução do transporte aéreo, considera a situação “verdadeiramente irresponsável”.
“É viajar em luxo numa crise de combustível e numa crise climática”, afirmou.
Thompson salientou que muitos passageiros de voos comerciais aguardam com preocupação possíveis cancelamentos. “Os viajantes de férias estão nervosos, à espera daquele e-mail a dizer que o seu voo vai ser interrompido”, disse.
A ativista acusou ainda os utilizadores de jatos privados de consumirem querosene que “as pessoas normais precisam para os seus voos de férias, mas que também, se a situação piorar, será necessário para necessidades humanitárias básicas e emergências médicas”.
Thompson apelou diretamente a atores e cineastas que participam no Festival de Cannes para evitarem jatos privados, citando o exemplo do ator Pedro Pascal, que viajou em classe económica para a gala do ano passado.
Segundo a T&E, no ano passado as personalidades VIP consumiram cerca de 2 milhões de litros de querosene para voarem até Cannes — o equivalente às emissões de aproximadamente 14.000 voos de ida e volta entre Paris e Atenas.
Jérôme du Boucher, diretor-adjunto para a aviação da organização, foi mais longe: “Não há desculpa para que os governos não suspendam completamente os jatos privados, tendo em conta a crise do combustível.”
Debate sobre regras de carbono e sistema europeu de comércio de emissões
Os ativistas exigem também que a Comissão Europeia elimine o que classificam como “lacunas” nas regras de precificação de carbono do Sistema de Comércio de Emissões (ETS). Atualmente, o sistema europeu de comércio de emissões abrange sobretudo operadores de maior dimensão, deixando de fora cerca de dois terços dos jatos privados, segundo os críticos.
Róman Kok contestou essa interpretação: “Com base nas nossas estimativas, rejeitamos categoricamente que dois terços dos jatos privados estejam isentos.” O responsável acrescentou que as isenções do ETS “aplicam-se a toda a aviação, não apenas à aviação executiva”.
Para os ativistas, o Festival de Cannes é apenas um dos palcos onde o debate se intensifica.
“Definitivamente não é só Cannes: estamos a olhar para o Mundial [FIFA], o Grande Prémio do Mónaco e o Open da Austrália”, afirmou Thompson.













