Nos primeiros 27 dias de janeiro de 2025, as urgências hospitalares do Serviço Nacional de Saúde (SNS) registaram um total de 436 437 atendimentos, um aumento de 10 131 casos face ao mesmo período do ano passado. Os hospitais do Norte – São João, Braga e Vila Nova de Gaia – continuam a liderar em número de episódios, seguidos pelo Hospital Amadora-Sintra. Apesar do aumento, a melhoria na triagem e tempos de espera indicam uma resposta mais eficaz do sistema.
De acordo com dados do site de monitorização diária do SNS, citados pelo Diário de Notícias, o aumento das urgências tem sido acompanhado por uma subida no número de casos classificados como urgentes. Este ano, foram triados com pulseira amarela 202 764 doentes, mais 24 855 do que em 2024, quando o número ficou nos 177 909. Estes números podem indicar que os utentes estão a ser encaminhados de forma mais eficaz para os serviços de urgência.
Outro dado relevante é o aumento de internamentos de doentes que deram entrada pelas urgências. Em 2025, até 27 de janeiro, foram internados 36 893 doentes, mais 121 do que no ano passado. Em contrapartida, registou-se uma ligeira diminuição de utentes que abandonaram os serviços antes de serem observados por um médico – 19 879 este ano contra 20 000 no mesmo período de 2024. Também os atendimentos de doentes classificados como não urgentes caíram para 151 252, menos 5 711 comparativamente ao ano anterior.
Apesar do crescimento do volume de urgências, os tempos médios de espera apresentaram melhorias. O tempo entre a admissão e a triagem manteve-se nos 15 minutos, mas o tempo entre a triagem e a primeira observação médica desceu de 68 minutos, em 2024, para 57 minutos este ano. Também o tempo médio de permanência nas urgências reduziu de 337 para 279 minutos.
Para Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), esta melhoria é um “bom indicador” e mostra que “as equipas têm tentado responder ao máximo”, mesmo perante a escassez de profissionais em algumas unidades hospitalares.
O desafio de reduzir os seis milhões de urgências anuais
A redução do volume de atendimentos nas urgências hospitalares para menos de seis milhões por ano tem sido uma meta defendida por responsáveis políticos, gestores hospitalares e profissionais de saúde. Contudo, segundo Xavier Barreto, ainda é “cedo para fazer essa leitura dos números” e avaliar se este objetivo poderá ser atingido. “É muito difícil comparar pequenos períodos, são anos diferentes e os picos de gripe também podem ser distintos”, sublinha.
A elevada afluência às urgências hospitalares é, em parte, impulsionada pela dificuldade de acesso aos cuidados de saúde primários. Em Lisboa e Vale do Tejo e no Algarve, regiões onde há maior escassez de médicos de família – com cerca de 1,5 milhões de utentes sem médico atribuído –, a tendência de recorrer às urgências como porta de entrada no SNS mantém-se.
Ainda assim, Xavier Barreto destaca que algumas zonas já começam a apresentar “resultados na gestão do acesso às urgências”, atribuindo essa evolução à nova estrutura das Unidades Locais de Saúde (ULS), que permite uma melhor articulação entre hospitais e cuidados primários. A pré-triagem telefónica através da linha SNS24 também tem ajudado, mas, segundo o especialista, “só isto não chega”. “É preciso continuar a investir nos cuidados primários, porque os utentes sem médico de família precisam de alternativas. Não há apenas uma solução, temos de atuar em vários níveis”, afirma.
Amadora-Sintra enfrenta tempos de espera elevados
O Hospital Amadora-Sintra tem sido um dos mais pressionados. No último fim de semana, atingiu tempos de espera para doentes urgentes superiores a 30 horas, uma situação inédita, segundo fontes hospitalares.
Xavier Barreto aponta que este hospital ainda não aderiu ao programa Ligue Antes, Salve Vidas, que visa a realização de uma pré-triagem antes da deslocação às urgências. No entanto, reconhece que a unidade enfrenta desafios específicos: “O Amadora-Sintra está subdimensionado para a população que serve e tem muito pouca cultura de médico de família”, lembra. A nova ULS Amadora-Sintra é uma das mais afetadas pela escassez de médicos de família na região de Lisboa e Vale do Tejo.
A elevada procura pelo hospital levou mesmo a Direção Executiva do SNS a recomendar que a unidade aderisse rapidamente ao programa Ligue Antes, Salve Vidas. O conselho de administração confirmou que o pedido já foi feito e aguarda autorização para implementação.
Durante o último fim de semana, o Amadora-Sintra registou 891 atendimentos nas urgências, sendo que 440 doentes foram encaminhados pela linha SNS24. No total, esta linha reencaminhou 730 doentes para diferentes serviços, incluindo 290 para cuidados primários.
Hospitais do Norte continuam a liderar
Os dados do SNS revelam que o Amadora-Sintra foi o segundo hospital do país com mais atendimentos em 2024, atrás apenas do Hospital São João, no Porto. Este padrão manteve-se este ano, com os hospitais de Braga e Vila Nova de Gaia a ocuparem os lugares seguintes no ranking de urgências.
No top 10 dos hospitais com mais atendimentos, figuram ainda o Hospital Santa Maria (Lisboa), o Hospital de Vale do Sousa (Grande Porto), o Hospital de Cascais, o Garcia de Orta (Almada), o Hospital de Aveiro e o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra. A única alteração registada nos últimos três anos foi a saída do Hospital de São José (Lisboa), que deu lugar ao Hospital de Santa Maria da Feira.
Xavier Barreto lembra que o Hospital de São José adotou um modelo de urgências baseado em Centros de Responsabilidade Integrada (CRI), o que pode justificar a redução do número de atendimentos. Quanto ao predomínio de hospitais do Norte no topo da lista, o gestor sugere que tal pode estar relacionado com a maior presença de unidades privadas na região de Lisboa e Vale do Tejo, que absorvem parte da procura.






