Na XXX Conferência Executive Digest, a co-CEO da Galp, Maria João Carioca, deixou um apelo claro: Portugal tem condições para afirmar uma política energética de excelência, mas precisa de passar da ambição à execução — e com maior consistência estratégica.
“Muito tem sido feito”, reconheceu, apontando, no entanto, a necessidade de uma orientação mais consistente quanto aos objetivos finais da política energética nacional.
No centro da sua intervenção esteve o chamado trilema energético — o equilíbrio entre segurança de abastecimento, sustentabilidade ambiental e acessibilidade económica. Para Maria João Carioca, este equilíbrio é essencial para garantir um caminho sólido e competitivo, sobretudo num país com recursos limitados. “Portugal tem de maximizar a produtividade dos recursos que tem, sob pena de continuar a enfrentar constrangimentos de capital e dificuldade em atrair investimento”, alertou.
Apesar de destacar o desempenho de Portugal na produção de eletricidade a partir de fontes renováveis — onde o país surge frequentemente bem posicionado em rankings internacionais — a gestora lembrou que esta representa apenas cerca de 25% do consumo energético total. Sectores como os transportes e a indústria continuam dependentes de outras fontes, o que exige uma abordagem mais ampla.
“Uma política energética extraordinária não se faz apenas de eletrões, mas também de moléculas”, afirmou, defendendo a necessidade de desencolver alternativas aos combustíveis fósseis que garantam maior autonomia ao país. Nesse contexto, apontou o investimento da Galp em Sines como exemplo concreto dessa estratégia, com cerca de 1,3 mil milhões de euros aplicados desde 2020 em soluções ligadas a combustíveis de origem biológica.
A co-CEO destacou ainda a importância de criar condições atrativas para o investimento, sublinhando que Portugal pode afirmar-se como um destino competitivo na produção de “moléculas verdes”, combinando soberania energética, sustentabilidade e viabilidade económica.
No entanto, deixou críticas ao enquadramento regulatório. Considera que o excesso de processos de licenciamento e a multiplicidade de entidades envolvidas representam uma “atrofia” para o setor energético, travando projetos e investimento.
Por fim, defendeu uma visão à escala ibérica, comparando Portugal com Espanha no que diz respeito aos apoios ao setor. “Os rácios são de 9 para 150”, afirmou, concluindo que, nestas condições, o investimento tende naturalmente a deslocar-se para o lado espanhol da fronteira.
A mensagem final foi clara: Portugal tem potencial para liderar na energia, mas só o conseguirá com execução, escala e um enquadramento mais favorável ao investimento.
A XXX Conferência Executive Digest decorre esta quarta-feira, na Culturgest, sob o tema “Os caminhos para um Portugal Extraordinário”, e conta com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, Delta Q, Fidelidade, MC Sonae, Nova SBE, Randstad, Recordati, Steelcase, Tabaqueira/Philip Morris, Unilever, CTT, Lusíadas Saúde, Vodafone, Galp, e ainda com a parceria da Neurónio Criativo, Sapo, SENO. A Sociedade Ponto Verde é o Parceiro de Sustentabilidade do evento.






