Uma pandemia que coloca em xeque a alimentação mundial? Cientistas garantem que estamos mais vulneráveis do que nunca

Em pleno séc. XXI, os cientistas não desconhecem o efeito que fungos, vírus, bactérias ou nematoides podem causar às plantações – no entanto, alertaram, estamos mais vulneráveis agora do que nunca

Francisco Laranjeira
Fevereiro 10, 2024
19:00

Houve pragas agrícolas que mudaram o curso da história: recorde-se o caso da crise da batata, no século XIX, que obrigou ao êxodo em massa de irlandeses, em particular para os Estados Unidos. Em pleno séc. XXI, os cientistas não desconhecem o efeito que fungos, vírus, bactérias ou nematoides podem causar às plantações – no entanto, alertaram, estamos mais vulneráveis agora do que nunca.

Há doenças a afetar áreas inteiras: a ferrugem do café, por exemplo, assola a América Central há mais de uma década, obrigou a uma redução de 50% na produção – e à ruína dos agricultores -, e levou à migração em massa de centenas de milhares de pessoas para os Estados Unidos.

Outra cultura tropical em risco devido a um fungo é a banana: o ‘fusarium oxysporum’, que praticamente ‘apagou’ a indústria da banana do mapa no século XX, a ponto de a variedade cultivada até então, a ‘Gros Michel’, ter sido totalmente substituída pela cultivada atualmente, a ‘Cavendish’ – no entanto, o mesmo patógeno contra-atacou, afetando já a nova variedade.

Estes casos, embora dramáticos, afetam países e culturas específicas que parecem não causar grande alarme internacional. O mesmo não se passa com pragas que ameaçam seriamente o fornecimento de alimentos básicos.

Atualmente, o fungo de maior impacto nas culturas é o ‘magnaporthe oryzae’. “Com as perdas que causa, 500 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas por ano”, garantiu Julio Rodríguez-Romero, investigador do Centro de Biotecnologia e Genómica Vegetal, em declarações ao jornal espanhol ‘El Confidencial’. E porque é tão perigoso? É um patógeno específico do arroz, principal alimento dos países asiático superpovoados, que, entretanto, ‘deu um salto’ para um cereal fundamental, o trigo.

Alguns microrganismos são especializados em atacar determinadas culturas, mas há outros, como os fungos necrotróficos, que se especializaram numa grande variedade de material vegetal. “Não se importam com a planta, acabam por a matar”, revelou o especialista. Há o caso da ‘botrytis cinerea’, “que pode afetar 200 plantas diferentes”, embora seja mais conhecido pelos seus danos na videira.

Esta versatilidade faz aumentar o perigo: o maior exemplo está no ‘magnaporthe oryzae’: encontrado no Brasil pela primeira vez, anos volvidos um artigo científico descreveu a devastação provocada pelo fungo no Bangladesh: em algum momento, alguém transportou o patógeno, na forma de alimento ou semente, para o outro lado do mundo.

“É um problema bastante comum”, afirmou o investigador. “A globalização afeta o movimento dos patógenos das plantas”, explicou, de modo que as doenças das culturas se movem de um país para outro com uma velocidade surpreendente, pelo menos “desde que sejam capazes de se adaptar às novas condições ambientais”.

O aquecimento global, porém, está a mudar as regras: um planeta mais interligado, com maior destruição de habitats e sujeito a alterações climáticas, é mais propenso do que nunca a pandemias humanas. O mesmo acontece com as doenças que afetam os animais e as plantas. “É algo muito semelhante, porque se unem os mesmos fatores”, afirmou Raúl Rivas, professor de Microbiologia da Universidade de Salamanca, em Espanha.

Há muitas circunstâncias que nos podem aproximar de uma “pandemia vegetal”, embora há fenómenos surpreendentes – em 2004, o furacão ‘Ivan’ trouxe a ferrugem da soja do Brasil para os Estados Unidos. “Os ventos dos furacões podem transportar esporos e até solo de um continente para o outro”, referiu Rivas.

A guerra na Ucrânia demonstrou que existem países-chave dos quais depende o fornecimento de produtos alimentares básicos a grandes regiões do mundo. “Existem vários países que geram grande parte da produção agrícola que é comercializada no resto do mundo”, afirmou o especialista, alertando que uma praga devastadora num ponto chave pode ter efeitos iguais ou muito piores do que um conflito.

A uniformidade das colheitas também não ajuda. As variedades comerciais dos produtos mais procurados, como o trigo, são muito escassas. A razão é que nas últimas décadas têm sido cultivadas exclusivamente as mais produtivas, em busca de maiores benefícios, mas isso leva à falta de diversidade genética. Isto significa que “se um patógeno chegar, pode destruir completamente uma colheita sem que haja alternativa com genes resistentes”.

Há sistemas de vigilância internacionais que tentam prevenir o desastre. “Tanto na Europa como nos Estados Unidos é feita uma monitorização em tempo real para mapear possíveis surtos ou detetar novas linhagens”, explicou o microbiologista.

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