Uma gestão sem filosofia?: Opinião de Jorge Marrão, membro do Conselho Editorial

Um fenómeno natural que inspirou parte da sua novela satírica Cândido. Dedicou-lhe também um poema. A partir dessa data acabou a denunciar o optimismo metafísico perante as atrocidades do mundo. A natureza obrigou-o a pensar. Segundo a enciclopédia britânica, pereceram 60.000 pessoas naquele catastrófico tsunami. Era o dia santo de 1 de Novembro celebrado em todas as igrejas. Até ao momento da escrita deste texto, as fontes oficiais anunciam 16.879 mortes por COVID-19 ocorridas num período longo que parece não ter um fim definido. E para citar Voltaire «a dúvida não é uma condição de prazer, mas a certeza é uma condição absurda».

Numa revista dedicada à gestão, como esta, em que se procuram os sucessos, as evidências e as soluções, a fina realidade, hoje, é reconhecer uma acumulação, entre outras, de perdas pessoais e empresariais que podem ter sido celebradas como exemplos no passado. As certezas de ontem, em que a sociedade se organizava de acordo com comportamentos mais ou menos conhecidos e dominados, passaram a ser incógnitas para pessoas concretas e modelos de negócios específicos.

É um “sismo” com origem microscópica que naturalmente terá consequências significativas nos comportamentos dos agentes de uma economia, designadamente nas pessoas, nas empresas, nas instituições financeiras e no Estado. Na aceleração em que vivemos, queremos uma resposta rápida e eficiente para quase todos os problemas com que nos deparamos.

A lentidão no domínio do problema e a perplexidade com que ficámos pelos efeitos globais fragilizaram-nos a todos. Em termos locais, a título de exemplo, as cidades de Lisboa e do Porto, ainda há pouco tempo abertas ao mundo, duramente criticadas por isso, viram-se obrigadas a fechar-se sobre si mesmas, podendo agora os críticos de outrora viver com os despojos do fechamento, isto é o encerramento económico, as vidas devastadas, os futuros imprevisíveis e incertos, e o desconhecimento da nova normalidade. Não há uma poção ou receita mágica perante a monumentalidade das mudanças.

Não dominar um vírus é também reconhecer que não podemos dominar o universo, nem a própria Terra, quer estejamos ou não mais perto de viver em Marte. Aos gestores e trabalhadores que têm a responsabilidade de manter vivas as suas empresas, de as manter competitivas, e, se possível, de as fazer crescer neste contexto, vai-lhes ser exigido que não permaneçam de braços cruzados à espera de algum ente divino.

Na terra portuguesa, este seria preferencialmente o Estado, no caso de Voltaire, o terramoto abalou com a sua ideia de criação divina de ordem e harmonia do universo. Nesta adversidade que estamos a viver e a aprender, que gestão, e sua filosofia e métodos, devem mudar, porquê e para quê? Vamos a coisas simples e óbvias: como consumidores e trabalhadores parece que seremos diferentes. As prioridades, as hierarquias, as preferências, os processos de tomada de decisão de uns e outros ao mudarem vão traduzir-se, ou não, em novas realidades empresariais e de gestão?

Os que tiverem a certeza que a vacina nos “congelou” também os comportamentos, ou seja voltamos a ser o que fomos, decidam nesse sentido. Os que não tiverem dúvidas que o mundo mudou, adaptem-se rapidamente e, de preferência, primeiro que os concorrentes, e aqueles que optarem por esperar para ver, decidam manter-se à tona da água, espreitando e aproveitando os erros e sucessos dos outros.

Parece assim concluir-se que, quaisquer que sejam as dimensões dos problemas, a filosofia de gestão para os enfrentar mantém-se inalterável: os que arriscam, os que conservam e os que se mantêm seguidores. Há, no entanto, grandes diferenças: os que arriscaram, os conservadores e os seguidores do passado não serão iguais aos do futuro. Vamos ter que celebrar novos sucessos, e lamentar novas perdas. Esta é a dinâmica de uma economia de mercado aberta e livre. Os que acreditam que o contexto em que operam não deve ter sobressaltos, i.e. que o Estado tudo deve saber e tudo deve resolver, aprendam com a natureza: surpreende sempre as nossas melhores convicções.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 181 de Abril de 2021

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