Uma falácia no desenvolvimento pessoal

Por Eduardo Saldanha, Professor e Diretor do DeRose Method em Lisboa

Caro leitor, para demonstrar a importância desta falácia, quero iniciar este artigo com um desafio para si. O que gostaria de melhorar em si, nas suas habilidades?

Faça uma lista das principais coisas que gostaria de aperfeiçoar.

A análise às respostas a esta pergunta, normalmente, gera uma epifania nos alunos (se não respondeu volte atrás e faça o exercício!).

Classifique cada resposta que deu de acordo com dois critérios:
– as que se referem a algo em que o seu desempenho é fraco e quer melhorar.

– aquelas em que, o que pretende melhorar é algo em que já é bom. Mas, quer ser ainda melhor.

Tipicamente, a maioria das respostas é relativa a aspetos negativos que se pretendem melhorar. E, em oposição, uma minoria diz respeito a talentos que se gostariam de aperfeiçoar.

Por exemplo, quando imaginamos uma criança com nota negativa a matemática e excelente nota a português, muitos pais pensariam em contratar um explicador de matemática, com a preocupação de que o seu filho ou filha não esteja à altura. Pois, em comparação com os outros, há o receio de não ser tão bom quanto a média ou de ficar para trás. Apenas uma minoria de pais, ainda que procurassem uma melhoria da nota da matemática para garantir um conhecimento mínimo, estariam muito mais focados no desenvolvimento da habilidade em português. Porque é nesta área que existe a maior probabilidade de destaque, de desenvolvimento da autoconfiança, de maturidade e até de realização (se a criança tiver paixão e vocação por ela).

Preferíamos ver um Ronaldo que fosse um jogador de futebol com um pouco menos de qualidade, mas que falasse melhor português?

Como refere o filósofo e professor DeRose: “As mesclas minam a credibilidade, a especialização enaltece-a”.

Acresce que nesta mentalidade de escassez tendemos a descontrair, a desleixarmo-nos quando temos um talento inato. É uma mentalidade que nos leva a considerar que, se sou bom em determinada área, então não preciso de me esforçar tanto. Isto ocorre porque o nosso subconsciente está programado para sobreviver. É uma resposta automática baseada no medo, naquilo que pode correr mal e segue a lei do menor esforço. É o instinto de preservar energia valiosa e seguirmos uma estratégia de dispêndio mínimo necessário. Por isso, aprendemos de forma automática e rápida por observação dos exemplos. A Professora Renata Coura no seu PHD (Docteur en neurosciences) concluiu que passamos de 96% a 98% do dia em piloto automático. Esta estratégia tem funcionado muito bem. Aliás, estamos a sobreviver com muito sucesso.

Porém, quando se fala em realização pessoal este modelo não é adequado. Precisamos da Lei do maior esforço. Não quereríamos assistir a um bailado em que os bailarinos fizessem apenas o necessário. Desejamos e valorizamos o brio extra, a alma, a genialidade. Qualquer que seja a nossa definição de sucesso, ele advém de nos exprimirmos de forma virtuosa em algo que amamos e em que temos uma prestação notável. Numa perspetiva de gestão da vida, é muito mais inteligente e eficaz desenvolver os nossos talentos, as nossas habilidades, os nossos superpoderes. E investir nisso o máximo possível do nosso tempo e energia. E o conhecido pensamento de que estamos restritos ao elo mais fraco continua a ser válido, dentro da nossa área de especialização.

Sobreviver e viver são duas formas diferentes de estar na vida.

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