Uma década depois do referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia, cresce o número de britânicos que defendem o regresso ao bloco europeu. Segundo o ‘The Guardian’, mais de metade dos eleitores manifesta agora apoio a essa possibilidade, sinalizando uma mudança significativa na opinião pública.
Um estudo recente indica que 53% dos eleitores britânicos apoiam a reentrada plena na União Europeia, em vez de soluções intermédias como o regresso apenas ao mercado único. Entre os eleitores de partidos como o Partido Trabalhista, os Liberal Democratas e os Verdes, esse apoio ultrapassa os 80%.
Apesar disso, 61% dos inquiridos afirmam apoiar a atual abordagem do Governo britânico às relações com a UE, embora apenas uma minoria – cerca de 19% – o faça de forma convicta.
Estratégia do Labour sob pressão
A posição cautelosa do Partido Trabalhista em relação ao tema tem sido alvo de críticas. Especialistas alertam que esta abordagem “moderada” pode afastar tanto eleitores progressistas como votantes das chamadas regiões do “red wall”.
Segundo o mesmo jornal, investigadores sublinham que soluções intermédias – descritas como “meias-medidas” – comportam riscos políticos, podendo não satisfazer nenhum dos lados do debate. O diretor de políticas da organização Best for Britain, Tom Brufatto, alerta para a necessidade de um debate mais profundo sobre soberania, caso o Reino Unido opte por uma maior integração com a UE.
Desafios políticos e económicos
O regresso ao mercado único ou à união aduaneira continua a ser politicamente sensível. Estas opções implicariam aceitar regras europeias sem participação direta na sua definição, algo que levanta questões sobre soberania nacional.
Desde o Brexit, em 2020, o Reino Unido já divergiu de dezenas de normas europeias, incluindo no âmbito das negociações para reduzir barreiras comerciais no setor agroalimentar. Este afastamento aumenta a complexidade de qualquer futura reaproximação.
Impacto eleitoral e futuro do debate
O especialista em sondagens John Curtice critica aquilo que descreve como uma “estratégia de silêncio” por parte do Labour em relação ao Brexit. Segundo ele, o partido poderá perder mais apoio entre eleitores pró-europeus do que entre os defensores da saída da UE.
Também figuras históricas do partido acreditam que o regresso à União Europeia poderá voltar à agenda política. Neil Kinnock, antigo líder trabalhista, considera que o impacto negativo do Brexit acabará por ser amplamente reconhecido pela população.
Um caminho incerto
Analistas destacam ainda contradições na atual estratégia do governo britânico. Embora reconheça o impacto económico negativo do Brexit – estimado em até 8% do PIB , o executivo propõe apenas ajustes limitados na relação com a UE, com ganhos económicos relativamente modestos.
Esta abordagem poderá tornar o Reino Unido cada vez mais dependente das regras europeias, sem influência direta na sua definição, criando desafios administrativos e políticos constantes.













