O chamado “Dia da Libertação” nos mercados financeiros globais, foi um dos episódios mais marcantes de instabilidade recente, e “desencadeou uma das piores quedas de ativos de risco no mundo de que há memória”.
Joana Vieira, partner da Ebury Portugal, sublinha que não só “as tarifas de Trump foram muito mais severas do que o esperado”, como “a forma arbitrária e caótica como os números reais foram produzidos assustou ainda mais os investidores”.
Os efeitos foram imediatos: “Os mercados bolsistas sofreram as suas maiores liquidações desde os primeiros dias da pandemia de Covid-19, os spreads de crédito explodiram e apenas os portos seguros beneficiaram.”
No mercado cambial, a reação inicial foi inesperada. “A reação inicial nos mercados cambiais foi contraintuitiva, uma vez que o dólar foi descartado indiscriminadamente, contradizendo a sabedoria convencional.” No entanto, acrescenta Joana Vieira, “no fim de semana, o dólar conseguiu recuperar face a todos os portos seguros, exceto os mais seguros, o franco suíço e o iene japonês, embora ainda tenha terminado em queda face ao euro.”
Entre os mais penalizados estiveram os países exportadores de matérias-primas. “Os mais afetados foram as moedas dos países exportadores de commodities, uma vez que os preços das commodities caíram a pique e os economistas aumentaram as suas expetativas de uma recessão mundial.”
A nova tarifa básica de 10% entrou em vigor durante o fim de semana, e medidas ainda mais duras deverão ser implementadas nos próximos dias. “Os níveis tarifários muito mais punitivos e variáveis em cada país deverão fazer o mesmo esta quarta-feira.” E, segundo a partner da Ebury, os sinais vindos de Washington não são animadores: “No fim de semana, os responsáveis da administração Trump pareceram rejeitar a ideia de que as negociações possam atrasar ou evitar estas tarifas, algo que dificilmente tranquilizará os investidores.”
Joana Vieira conclui alertando para uma nova dinâmica no comportamento dos mercados: “Esperamos que os mercados, e a taxa de câmbio em particular, sejam movidos por manchetes sobre tarifas, medidas de retaliação por parte dos parceiros comerciais dos EUA e possíveis negociações, em detrimento do calendário macroeconómico e político normal.”
O único dado macro que poderá ter impacto é o relatório de inflação de março dos EUA. “O único relatório económico que poderá chamar a atenção dos investidores é a inflação do IPC de março dos EUA, que poderá começar a mostrar o impacto inicial da primeira ronda de tarifas sobre a China, anunciada no início do ano.” Também os dados sobre as expetativas de inflação dos consumidores dos EUA, a serem divulgados na sexta-feira, serão relevantes: “As expetativas de inflação do consumidor dos EUA (sexta-feira) também merecem atenção pelo mesmo motivo.”














