“Uma catástrofe”: Ucrânia perdeu quase metade da população numa geração

Guerra acelerou uma tendência que já vinha de trás. A Ucrânia sofria há décadas com baixa natalidade, envelhecimento da população e emigração para países da União Europeia

Francisco Laranjeira

A Ucrânia poderá ter hoje apenas entre 22 e 25 milhões de habitantes nas zonas sob controlo de Kiev, um valor muito abaixo das estimativas mais recentes e que levou o ministro da Política Social, Denys Uliutin, a classificar a situação como “uma catástrofe”. A estimativa foi avançada durante o fórum “New Country” e citada pelo site ‘Novinite’, num retrato que expõe a dimensão da crise demográfica provocada pela guerra, pela emigração e pelo envelhecimento da população.

O número surpreendeu por ficar bastante abaixo dos cálculos divulgados nas últimas semanas por Ella Libanova, diretora do Instituto de Demografia e Estudos Sociais da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia. A especialista tinha estimado que cerca de 29 milhões de pessoas viviam, em fevereiro de 2026, em território controlado pelo Governo ucraniano, menos um milhão do que um ano antes. O próprio instituto reconhece, porém, que a contagem exata é impossível enquanto a guerra continuar, até porque a Ucrânia não realiza um censo nacional desde 2001.

A diferença entre os dois valores — entre 22 a 25 milhões, segundo Uliutin, e cerca de 29 milhões, segundo Libanova — ainda não foi explicada publicamente. Ambos assentam em estimativas, dados administrativos, modelos demográficos e fontes indiretas, não numa contagem oficial da população. Ainda assim, mesmo no cenário mais alto, a quebra é profunda: quando a União Soviética se desfez, em 1991, a Ucrânia tinha cerca de 48 milhões de habitantes; antes da invasão russa em larga escala, em janeiro de 2022, já tinha recuado para cerca de 41 milhões.

A guerra acelerou uma tendência que já vinha de trás. A Ucrânia sofria há décadas com baixa natalidade, envelhecimento da população e emigração para países da União Europeia. Segundo Libanova, a queda mais recente não se explica apenas por uma nova vaga migratória, mas sobretudo pelo aumento da mortalidade e pela ausência de nascimentos suficientes para compensar as perdas. “A população está envelhecida: há pessoas para morrer, mas não há quem nasça”, afirmou a demógrafa, citada pelo LB.ua.

O impacto social é imediato. Denys Uliutin estima que entre 13 e 15 milhões de pessoas recebam atualmente algum tipo de pagamento social do Estado ucraniano, um peso que reflete tanto a estrutura etária do país como o deslocamento interno causado pelos combates. Num país em guerra, com parte do território ocupado e milhões de cidadãos no estrangeiro, a base ativa que financia o Estado fica mais estreita ao mesmo tempo que as necessidades sociais aumentam.

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A emigração é outro dos grandes problemas para o futuro da Ucrânia. A vaga de refugiados de 2022 foi marcada pelas regras de mobilização militar, que impediram muitos homens em idade de combate de sair do país. Milhões de mulheres e crianças instalaram-se na Polónia, Alemanha, República Checa e noutros países europeus, muitas vezes com emprego, residência regularizada e filhos integrados nas escolas locais. Libanova tem alertado que, quando os homens puderem sair livremente, existe o risco de serem eles a juntar-se às famílias no estrangeiro, em vez de as famílias regressarem à Ucrânia.

Essa perspetiva agrava o desafio da reconstrução. O país precisará de trabalhadores, contribuintes, famílias jovens e quadros qualificados para recuperar da destruição causada pela guerra. Mas parte importante da população mais preparada pode ficar definitivamente fora do país. Segundo a análise citada pelo ‘Novinite’, muitas das mulheres que saíram têm formação superior, o que torna a perda demográfica também uma perda de capital humano.

Os demógrafos avisam que uma recuperação para níveis próximos dos anteriores à guerra, se acontecer, levará décadas. A Ucrânia já não estava a atingir antes da invasão a taxa de natalidade necessária para estabilizar a população, e a guerra agravou todos os fatores negativos: mortes, deslocações, incerteza económica, separação familiar e adiamento de projetos de vida.

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A estimativa de Uliutin não fecha a discussão, mas altera o ponto de partida. Mesmo que os números venham a ser corrigidos, a mensagem política é clara: a Ucrânia não enfrenta apenas uma guerra territorial e militar. Enfrenta também uma crise demográfica que pode condicionar a sua economia, o seu sistema social e a capacidade de reconstrução durante muitos anos.

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