Uma ‘bomba-relógio’ subterrânea: mina francesa ameaça envenenar a água potável de milhões de europeus

Preocupações crescem sobre os 42 mil toneladas de resíduos tóxicos armazenados na antiga mina de Stocamine, que ameaçam infiltrar-se no aquífero do Alto Reno.

Pedro Gonçalves
Junho 23, 2025
14:55

Num terreno aparentemente banal de dois hectares, envolto numa neblina matinal, ergue-se o que resta da mina de Stocamine, nos arredores da cidade industrial de Wittelsheim, na região francesa da Alsácia. À superfície, pouco denuncia o que esconde o subsolo: dois poços de mina vedados, edifícios de escritórios modernos, um parque de estacionamento e fileiras de árvores plantadas de propósito. Mas oito polícias patrulham o local. O motivo? Sob os seus pés estão armazenadas cerca de 42 mil toneladas de resíduos tóxicos, depositadas nas antigas galerias de uma mina de potássio.

O verdadeiro perigo reside no facto de esta mina se situar por baixo de um dos maiores aquíferos da Europa, que alimenta o aquífero do Alto Reno, estendendo-se entre França, Suíça e Alemanha, e de onde depende a água potável de milhões de pessoas. Cientistas e ambientalistas temem que, com o tempo, os resíduos possam infiltrar-se no aquífero, provocando uma catástrofe ambiental e riscos graves para a saúde humana e a biodiversidade.

No passado dia 17 de junho, um juiz francês confirmou a decisão do governo de selar os resíduos com toneladas de betão, em vez de os remover. Para os que lutam pela remoção, esta decisão é uma “bomba-relógio para as gerações futuras”.

A mina, aberta originalmente para a extracção de potássio, possui 125 quilómetros de túneis e, numa área equivalente a sete campos de futebol, armazena mercúrio, arsénico, metais pesados, cianeto e resíduos de incineradores domésticos. Existem ainda relatos de que resíduos ilegais poderão também estar escondidos nas galerias.

Um legado para os netos
A batalha contra Stocamine dura há décadas. No local, as manifestações são frequentes desde os anos 1980. Num dos recentes protestos, Yann Flory, ex-professor de educação física reformado e activista, lembra a The Guardian: “Já organizei mais de 20 manifestações desde 1989. Comecei porque tinha filhos pequenos. Agora faço-o pelos meus netos. Um dia, a água que bebemos estará irremediavelmente poluída.”

As condições no subsolo são preocupantes. A rocha está em movimento, devido à pressão das minas vizinhas, e as paredes das galerias desabam a um ritmo de dois centímetros por ano. A temperatura constante de 30 graus Celsius acelera a corrosão. Parte dos contentores de resíduos já não é acessível.

Embora existam estudos que indicam que o alagamento total da mina ocorrerá nos próximos 300 anos, não há consenso científico sobre se o selamento com betão conseguirá impedir a contaminação. Alguns especialistas defendem que a única solução verdadeiramente segura seria a remoção integral dos resíduos, um processo estimado em cerca de 65 milhões de euros.

Impactos na saúde e na biodiversidade
Mesmo em concentrações reduzidas, metais pesados na água são associados a cancro, doenças neurológicas e danos renais, além de efeitos cumulativos no organismo. Para os ecossistemas aquáticos, a ameaça é igualmente devastadora: deformações, problemas neurológicos e redução da biodiversidade. O cianeto, altamente tóxico e presente em Stocamine, já foi ligado a episódios de mortes em massa de peixes e à criação de zonas mortas em cursos de água.

A organização ambientalista Alsace Nature recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, alegando risco para a saúde pública. No entanto, em Junho, o tribunal decidiu que o estado de degradação das galerias tornava a remoção perigosa, autorizando o armazenamento permanente.

Entre os manifestantes, encontra-se Jean-Pierre Hecht, antigo mineiro que participou na colocação de resíduos na mina. “Sentimo-nos traídos”, afirma. Hecht começou a trabalhar em Stocamine aos 20 anos, em 1982, orgulhoso de seguir os passos do avô.

Na altura, o projecto foi apresentado como uma “salvação” para os mineiros: o armazenamento de resíduos prolongaria o trabalho na mina. Prospectos publicitavam-na como uma ‘mina ao serviço do ambiente’, e garantiam que os resíduos seriam removidos ao fim de 30 anos, beneficiando dos avanços tecnológicos.

Mas a realidade foi bem diferente. Apenas 24 empregos foram criados — muito aquém dos 90 prometidos — e em Setembro de 2002, um incêndio subterrâneo libertou fumos tóxicos durante meses, obrigando ao fecho da instalação. O então CEO foi condenado com pena suspensa de quatro meses e, em 2009, o Estado francês tornou-se o único acionista da empresa proprietária, Mines de Potasse d’Alsace, que se recusou a comentar para o The Guardian.

Um problema moral e técnico
Marcos Buser, geólogo suíço especialista em resíduos tóxicos e nucleares, estudou o caso em 2010. Para Buser, não restam dúvidas: “Os resíduos devem ser removidos com urgência. Não podemos simplesmente enterrá-los e esquecer. Irá voltar.”

O especialista critica décadas de gestão inadequada dos resíduos perigosos, lembrando que as barreiras de contenção não duram para sempre e os custos futuros de remediação são elevados. “Estamos a deixar um fardo enorme às gerações futuras. Precisamos de uma economia circular e não de enterrar montanhas de resíduos.”

O presidente da câmara de Wittelsheim, Yves Goepfert, declarou em 2022 que, se pudesse, gostaria de ver Stocamine desaparecer. Contudo, admite que, “para já”, manter os resíduos na mina parece ser “a solução menos má”. O autarca apela a mais investigação sobre a hidrologia local e os riscos potenciais, afirmando que há tantas hipóteses quantos especialistas consultados.

Entretanto, a Comunidade Europeia da Alsácia anunciou que irá recorrer da decisão governamental. Yann Flory reforça: “Vamos lembrar sistematicamente aos cidadãos e aos seus representantes que têm uma bomba-relógio debaixo dos pés.”

A situação em Stocamine está longe de se resolver, e com o tempo a escassear e o subsolo a degradar-se, cresce a pressão para que se encontre uma solução que não sacrifique o futuro das gerações vindouras.

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